sexta-feira, 23 de julho de 2010

OS INDIFERENTES - ANTONIO GRAMSCI (11/02/1917)


Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que "viver significa tomar partido". Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heróica.A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar.A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Há fatos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso.Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então zangam-se, queriam eximir-se às conseqüências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis.Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu cepticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero.Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.

terça-feira, 20 de julho de 2010

MARGEM


Nunca compreenderemos a existência de uma outra pessoa diante de nós, pois a vemos como objeto. Porque só há lugar para 'outro' se em nosso próprio contexto. Será necessário que eu, você, ele, nos desdobremos (distanciados de nossos particulares territórios), se pretendermos viver a experiência alheia. Afinal, enxergamos no 'outro' sempre a nossa réplica. Um ser real, mas à margem, já que é por trás de nós que ele existe. Da mesma maneira como tudo adquire independência absoluta somente à margem do nosso campo de visão.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

FUNDAMENTAÇÃO DA METAFÍSICA DOS COSTUMES À LUZ DE IMMANUEL KANT


Kant é, sem dúvida, um dos mais importantes filósofos modernos, tendo se destacado mundialmente pela introdução de modificações radicais no modo de pensar sobre a filosofia. Kant fugiu do empirismo até então reinante, representado pela obra de David Hume, e inaugurou uma nova concepção filosófica, baseada na razão. As principais obras de Kant são a Crítica da Razão Pura (1781), que trata sobre o conhecimento; Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785); Crítica da Razão Prática (1788) e Metafísica dos Costumes (1797). As três últimas estudam a Ética e a moralidade.Uma das obras, em particular, que atinge hoje em dia grande destaque é a Fundamentação da Metafísica dos Costumes, considerada por muitos filósofos como a mais importante já escrita sobre a moral.Nesta obra Kant afirma que o que distingue o homem dos outros seres da natureza é a razão. Pretende alterar o conceito de moralidade e introduz conceitos como a Boa Vontade. Kant considera leis morais apenas as leis universais. A ação humana, no seu entender, quando puder ser elevada a condição de universalmente aceita, acaba se tornando uma lei moral, devendo, por razões racionais, ser observada por todos. A obra é composta pelo prefácio e por três seções. No prefácio Kant faz rápidas pinceladas sobre o tema, sem intenção de tecer conceitos ou esgotar o tema. Nas seções ele aborda a passagem do conhecimento vulgar para o filosófico; a transição da filosofia moral popular para a Metafísica dos Costumes; e a passagem da Metafísica dos Costumes para a Crítica da Razão Pura Prática. A análise que será feita no presente trabalho se restringirá apenas às duas partes consideradas mais importantes, o Prefácio e a primeira seção.
Prefácio Kant inicia observando que a velha filosofia grega divide as ciências em três partes: a Física, a Ética e a Lógica. As duas primeiras fazem parte do conhecimento dito material, pois consideram o objeto e as leis a que estão submetidos e possuem partes empíricas e racionais. A lógica, por sua vez, faz parte do conhecimento formal, que se ocupa do entendimento, da razão e das regras universais do pensar em geral, sem distinção de objetos. O conhecimento formal é apenas racional, não tendo parte prática. O autor também comenta sobre as filosofias naturais, morais e puras (esta última seria a formal, a lógica pura). A filosofia natural estaria regida pelas leis da natureza e poderia ser chamada também de teoria da natureza ou metafísica da natureza. É guiada pela regra do “ser”, categórico, isto é, as leis naturais não admitem exceções ou falseamento. A filosofia moral, por sua vez, é também conhecida como leis da liberdade ou teoria dos costumes, ou ainda, metafísica dos costumes, regrada pelo “dever ser”, pelo hipotético. As leis morais consistem em condutas esperadas, porém não necessariamente obrigatórias, que admitem, portanto, a hipótese de descumprimento ou relativização. Consiste no estudo da vontade do homem. Existe, portanto, uma dupla metafísica. A metafísica da natureza e a Metafísica dos costumes. A primeira é representada pela física e possui partes empírica (princípio da experiência) e racional bem definidas. A metafísica dos costumes é representada pela ética, que apresenta uma parte empírica, consistente na antropologia prática (estudo do conhecimento do homem) e uma parte racional, correspondente à moral.A razão no sentido prático ou vontade é um conceito fundamental para Kant. A razão prática é aquela que não se preocupa em traduzir as leis da natureza (razão teórica – ser), mas sim as leis segundo as quais o ser racional, dotado de liberdade deve agir. Dizer que o homem tem vontade é dizer que ele pode representar-se uma lei e agir de acordo com ela. A dicotomia entre o ser e o dever ser, já abordada pelos gregos, é explorada por Kant, que separa bem o pensamento racional e o empírico. As leis morais se diferenciam de tudo que seja produto da experiência, ou seja, de tudo que seja empírico.Trata-se do pressuposto de pureza constante nas obras de Kant. A filosofia moral é considerada pura pois foge do empirismo. Não recorre a nada do conhecimento do homem. Pelo contrário, fornece a este, como ser racional, leis a priori. A metafísica dos costumes serve para investigar a origem dos princípios práticos que residem aprioristicamente na razão. Ademais, os costumes podem se perverter quando falta um elemento que os conduzam para a moral. A conduta moralmente boa deve ser cumprida por amor da lei moral, sob pena de inconsistência e incerteza. Voltando às classificações, Kant observa duas formas de conhecimento: o Empírico ou a posteriori, e o Puro, racional ou a priori. O conhecimento empírico decorre de dados fornecidos pelas experiências sensíveis. Como exemplo ele menciona a constatação de que uma janela está aberta. Tal constatação decorre de informações captadas pelos sentidos.Por outro lado, a noção de que a linha reta é a distancia mais curta entre dois pontos decorre do pensamento puro, não sendo necessário constatar tal fato por meio de experimentação. O termo "Metafísica" para Kant significa um conhecimento não-empírico ou racional. Combinando com o conceito de costumes, que designa todo o conjunto de leis ou regras de conduta que normatizam a ação humana, Kant chega ao conceito de Metafísica dos Costumes, que é o estudo de leis que regulam a conduta humana sob um ponto de vista essencialmente racional e não contaminado pela empiria.Kant diferencia a Metafísica dos Costumes da Filosofia Prática Universal proposta por Wolff. Esta ultima é o querer em geral, considerando tanto parte empírica quanto racional. A Metafísica dos Costumes, por sua vez, deve investigar a idéia e os princípios duma possível vontade pura, e não as ações e condições do querer humano em geral, as quais são tiradas em sua maior parte da Psicologia. Esse é o principal ponto de distinção, pois a Filosofia Prática Universal não considerou nenhuma vontade que fosse determinada completamente por princípios a priori e sem quaisquer móbiles empíricos e a que se poderia chamar uma vontade pura. Na verdade, a concepção de Kant teve como objetivo purificar a filosofia, reivindicando que a Metafísica não é senão o inventário de tudo que possuímos através da razão pura (puros conceitos formulados pelo pensamento puro ou pelo intelecto). Kant afirma que a razão humana no campo da moral, mesmo no caso do mais vulgar entendimento, pode ser facilmente levada a um alto grau de justeza e desenvolvimento, o que reforça a idéia de que a moralidade é ínsita ao ser humano.
O objetivo da Fundamentação da Metafísica dos Costumes é buscar um princípio de moralidade que fundamente os costumes e o agir moral. O método empregado abrange dois passos. Primeiro, analiticamente, ir do conhecimento vulgar ao princípio supremo desta espécie de conhecimento. Segundo, sinteticamente, em sentido inverso, caminhar deste princípio e de suas fontes para a Crítica da razão pura prática. A obra, por conseguinte, compõe-se de três partes, além do Prefácio: Primeira seção: passagem do conhecimento vulgar para o filosófico; Segunda seção: saída da filosofia moral popular para a Metafísica dos Costumes; Terceira seção: o último passo, da Metafísica dos Costumes para a Crítica da Razão Pura Prática.As leis morais orientam o agir humano, sendo o ponto de partida a boa vontade. Dizemos que as coisas são boas ou más, porém elas não são nem boas nem más em si mesmas. O homem é o único ser do qual se pode extrair os sentimentos de bondade ou a maldade, pois é ele que realiza ações e almeja alcançar as respectivas finalidades. Estas finalidades se relacionam com a moralidade das condutas, de modo a se concluir que a única coisa que pode ser boa ou má é a própria vontade humana.Ademais, a boa vontade constitui a condição indispensável para que o homem seja digno de felicidade. Não adianta possuir qualidades ou dons se a pessoa não possuir boa vontade, pois todas as qualidades da pessoa podem ser desvirtuadas, desde que se tenha má vontade.Aliás, o resultado concreto positivo sequer é necessário para se qualificar determinada ação humana como moralmente boa. Conforme Kant, a mera vontade do sujeito já poderia ser suficiente para se considerar determinada conduta valorosa.A própria razão vulgar indica a boa vontade como moralmente boa. Kant menciona a dicotomia entre a razão e instinto. O instinto, a principio, garantiria ao sujeito a adoção da melhor opção, no sentido de auto-preservação, o que poderia ser taxado como conduta moralmente boa. A razão não seria suficiente para guiar o homem para a satisfação de suas necessidades.Contudo, a razão foi dada como faculdade que deve exercer influência sobre a vontade. O destino da razão deverá produzir uma vontade boa em si mesma e não boa como meio para atingir fins diversos. A razão deve prevalecer sobre o instinto. Deve buscar o bem supremo, a satisfação e, ainda, evitar inclinações e instintos.Kant propõe, então, a diferenciação de a) cumprir determinada lei por dever; b) cumprir conforme ao dever.Exclui, ao mesmo tempo, a ação contrária ao dever e as ações verdadeiramente conformes ao dever (sem inclinação).
Em análise, então, alguns exemplos:
1º exemplo: Se o negócio corre muito bem, o comerciante esperto mantém um preço fixo para toda a clientela. O merceeiro, honradamente, age conforme ao dever. No entanto, pode ter agido assim por interesse e não por amor aos fregueses.A ação não foi, portanto, praticada nem por dever nem por inclinação imediata, mas somente por inclinação egoísta.
2º exemplo: Conservar a vida é um dever e uma inclinação natural, por isso os homens dedicam-lhe um cuidado exagerado. Agem, então, conforme ao dever, mas não por dever. Se, porém, a sua vida é infeliz e, mesmo desejando a morte, conserva a vida sem amor, não por inclinação ou medo, mas por dever, então a sua máxima tem um conteúdo moral.
3º exemplo: Assegurar a felicidade própria é um dever, já que a infelicidade constitui tentação para a transgressão dos deveres, mas todos os homens possuem inclinação para a felicidade, idéia que reúne a soma de todas as inclinações.Kant lança mão do gotoso, que prefere o prazer da mesa à felicidade da saúde. Ele não é determinado pela inclinação para a felicidade, mas também não age por dever, porque o dever determina a procura da felicidade.
4º exemplo: A Sagrada Escritura manda que amemos o próximo, mesmo o nosso inimigo. Esse é o amor por dever, prático, não sensível, não patológico; que pode ser ordenado, que depende da ordem da vontade.Podemos então concluir que uma ação conforme ao dever depende do objeto e é praticada por inclinação, por interesse ou por egoísmo. Uma ação praticada por dever vale pela máxima que a determina, tem o seu objeto na vontade.Por fim, para se saber se a conduta praticada é moral Kant utiliza-se do seguinte método: o agente deve observar a sua conduta e se perguntar se esta conduta deve passar a ser universalmente utilizada. Assim, mesmo se no ponto de vista particular a conduta trouxe benefício ao agente, se ela não puder se estendida como boa para toda a coletividade, não poderá ser taxada como moralmente aceita.Kant utiliza-se de mais um exemplo. A pessoa que em situação de apuros faz uma promessa que sabe que não cumprirá certamente considerará esta conduta como aceitável e até mesmo boa, pois lhe livrou da situação emergencial em que se encontrava. Entretanto, a mesma pessoa, em um exame intimo, certamente não considerará correto ou aceitável que todos passassem a realizar promessas falsas para se livrar de situações inusitadas. Assim, a conclusão que se chega é que a conduta não é moralmente aceita como boa.

ConclusãoNesta obra Kant pretende expor que a razão é o motor que distingue o homem dos demais seres. Por ser regido pela racionalidade, as condutas humanas serão moralmente positivas somente se forem executadas com o ânimo igualmente positivo do agente. Ou seja, se for imbuído de boa vontade. A lei moral, portanto, é cumprida fruto do pensamento racional positivo humano.Conclui-se que o objetivo da obra é, portanto, buscar um princípio de moralidade que fundamente os costumes e o agir moral.

sábado, 17 de julho de 2010


Filósofo e provocador

Ao ler que
"Pensar é estar doente dos olhos",
fica-se a saber a causa
de o Fernando precisar de óculos.
E a supor que serão adereço obrigatório
de todos os filósofos.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

LITERATO LÚDICO

No ensaio “A percepção do outro e o diálogo”, publicado em A prosa do mundo, de 1969, o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty afirmou que “jamais se compreenderá que um outro apareça diante de nós, o que está diante de nós é objeto” . Isso porque, segundo a sua teoria, só há lugar para outro em “meu campo”, portanto, é preciso que me desdobre e me descentre para viver a experiência do outro, a qual “é sempre a de uma réplica de mim, de uma réplica minha” . Como réplica, o outro está sempre à margem, já que “é por trás de nós que ele existe, assim como as coisas adquirem sua independência absoluta à margem do nosso campo visual” .É no diálogo, na fala, entretanto, que se renova a mediação entre o mesmo e o outro. Na opinião de Merleau-Ponty, “minha fala coincide lateralmente com a de um outro, ouço-me nele e ele fala em mim, aqui é a mesma coisa to speak to e to be spoken to” . Para o filósofo francês, “não sou apenas ativo quando falo, mas precedo a minha fala no ouvinte; não sou apenas passivo quando escuto, mas falo de acordo com [...] o que o outro diz” .Desse modo, na fala, conclui Merleau-Ponty, “se realiza a impossível concordância das duas totalidades rivais, não que ela nos faça entrar em nós mesmos e reencontrar algum espírito único do qual participaríamos, mas porque ela nos concerne, nos atinge de viés, nos seduz, nos arrebata, nos transforma no outro, e ele em nós”. Talvez, poderia supor, resida aí o medo que temos do canto das sereias, de sua fala que põe fim aos “limites do meu e do não meu, e faz cessar a alternância do que tem sentido para mim e do que é não sentido para mim, de mim como sujeito e do outro como objeto” .Mais temível que a fala é, porém, o silêncio. No conto “O silêncio das sereias”, Kafka afirma, a esse respeito, que as sereias “têm uma arma ainda mais terrível que o canto: o seu silêncio. Apesar de não ter acontecido isso, é imaginável que alguém tenha escapado ao seu canto, mas do seu silêncio certamente não” De fato, no silêncio não se quer seduzir, deseja-se apenas capturar “o mais longamente possível o brilho do grande par de olhos de Ulisses” , segundo Kafka. Além disso, o silêncio nos condena ao vazio, que só termina com a fala. Conforme Adorno e Horkheimer, “para escapar ao vazio lancinante é necessário uma resistência cuja coluna vertebral é a linguagem”.A fala ou a espontaneidade é, assim, o poder que melhor designa “esse gesto ambíguo que produz o universal com o singular, e o sentido com nossa vida” . Muda, a sereia do conto de Hans Christian Andersen não seduz, captura, se bem que por algum tempo apenas, “o brilho do grande par de olhos” do príncipe e se esvai, “desfazendo-se aos poucos em espuma” do mar.No tocante ao outro que a fala pretende alcançar, tratarei aqui especificamente da criança, pensada enquanto outro do adulto. Poderia até supor que Merleau-Ponty, com a sua tese, tenha lançado um olhar especial sobre a criança, já que, por alguns anos, de 1949 a 1953, ocupou a cátedra de Psicologia Infantil na Sorbonne.Efetivamente, um dos primeiros contatos que temos com a criança (esse outro) se dá pela fala, sendo que, segundo o filósofo e crítico literário russo Mikhail Bakhtin, “as influências extratextuais têm uma importância muito especial nas primeiras fases do desenvolvimento do homem. Estas influências estão revestidas de palavras (ou de outros signos) e estas palavras pertencem a outras pessoas [...]. Depois, estas ‘palavras alheias’ se reelaboram dialogicamente em ‘palavras próprias alheias’ com a ajuda de outras ‘palavras alheias’ (anteriormente ouvidas) e, em seguida, já em palavras próprias (com a perda das aspas, para falar metaforicamente) que já possuem caráter criativo”. Alcançada a consciência criativa, um novo diálogo se inicia (“agora com vozes externas novas”, como afirma Bakhtin). Entretanto, essa “consciência do homem desperta”, de acordo com o filósofo e crítico literário russo, “envolvida na consciência alheia”: “eu me conheço inicialmente através dos outros: deles recebo palavras, formas, tonalidade, para formar uma noção inicial de mim mesmo” .Ocorre, entretanto, que não temos mais tempo para o diálogo (nem com a criança, nem com os outros de modo geral), razão pela qual estamos condenando o outro ao desaparecimento. No ensaio “O continente negro da infância”, o filósofo francês Jean Baudrillard afirma que, “como tantos outros domínios, a infância e a adolescência convertem-se hoje em espaço destinado por seu abandono à deriva marginal e à delinquência”. Isso porque, ainda segundo Baudrillard, “o ritual atual, do imediatismo, da aceleração, do tempo real, vai exatamente de encontro à concepção, à gestação, ao tempo de procriação e de criação, da longa duração à qual corresponde a infância humana”. Esse imediatismo, que não reserva tempo ao diálogo, condena, “logicamente, a criança a desaparecer”.Baudrillard faz, entretanto, uma ressalva e pede “calma”, pois, segundo ele, “crianças sempre haverá, mas como objeto de curiosidade ou de perversão sexual, ou de compaixão, ou de manipulação e de experimentação pedagógica [...]”.O fato é que, de acordo com a sua teoria, antes de a criança desaparecer, o que ocorrerá é que ela tenderá a se tornar um Alien, “um monstro saído da ruptura da cadeia simbólica das gerações”, em razão das experimentações genéticas, ou um “produto errático, produto de outra época, flutuando a maior parte do tempo entre pais que não sabem o que fazer dela” .Na literatura, as crianças já estão sendo imaginadas como Aliens, este absolutamente outro de que fala Baudrillard, cuja proximidade é impossível. Em 1997, Tim Burton (conhecido por ter dirigido filmes como Edward mãos de tesoura, A noiva cadáver, Batman e, mais recentemente, Alice no País das Maravilhas) publicou o livro infanto-juvenil O triste fim do Menino Ostra e outras histórias (lançado em 2007 no Brasil pela Editora Girafinha, São Paulo), cuja narrativa orbita em torno de histórias de crianças que não acham o seu lugar no mundo, ou de adultos que não sabem o que fazer com elas, como lemos no conto que dá título ao livro: “Com o doutor a mãe foi se queixar:/ ‘Essa criança não é minha,/ Pois cheira a oceano e alga marinha’./ ‘Minha senhora, isso não é nada!/ Uma menina de bico e três orelhas/ Eu tratei na semana passada./ Por seu filho ser meio ostra,/ Não adianta me culpar./ Quem sabe fosse o caso de comprar/ Uma casinha à beira-mar ...’”.Não é à toa que Francisco, o pobre Menino Ostra, tenha um “triste fim” (ou uma “morte melancólica’, como se lê no original): “[ao pai do menino] O médico fez uma conjectura:/ ‘A fonte não é de todo segura/ Mas seu distúrbio pode ter cura./ Está quase provado: comer ostras/ Propicia um desempenho sexual extra./ Talvez, devorar seu filho/ Ajude a durar por horas e horas’”. O pai leva às últimas consequências o conselho do médico, devorando a própria cria.Mas a fala não só nos aproxima do outro/da criança como também nos introduz à literatura. Se hoje vivemos uma crise da leitura, como afirma o ensaísta argentino Daniel Link − “a crise da leitura, que se costuma dar por certa, mais cedo ou mais tarde afeta a escrita” −, é porque nos faltam narradores. Ademais disso, como devolver a literatura às crianças (aos leitores de modo geral) em um mundo que vive uma espécie de “canibalismo atrativo”, no qual tudo é visto simultaneamente, onde não existe espaço para a experiência, onde, como diz Jean Baudrillard, “não é mais o contágio do espetáculo que altera a realidade, mas o contágio do virtual que apaga o espetáculo”? . Walter Benjamin afirmava, já no início do século passado, que “se a arte de narrar hoje é rara, a difusão da informação é decisivamente responsável por seu declínio”.No entanto, se “a literatura é um ato de fé” (segundo o ensaísta francês Régis Debray), e se “a fé é pelo ouvir” (Câmara Cascudo, citando São Paulo), a literatura oral tem seu lugar assegurado, ao lado da literatura escrita, como “edifício” da cultura e da memória de um povo. Segundo Régis Debray, o livro é o “objeto pesado”, que “comanda uma pesada afetividade. O peso esmagador, casto, quase mortuário, da cultura encarna-se nesses poeirentos poderosos, paralelepípedos abruptos e ameaçadores”, que precedem a leitura. A literatura oral não se materializa, mas, bem ouvida, retorna como memória viva de uma cultura.Quanto à biblioteca, os narradores de histórias anunciam “menos dogma e mais ludismo, menos cânone e mais festejo" (como afirmou Régis Debray ao se referir, em outro contexto, aos livros eletrônicos, esses ainda distantes da maioria dos brasileiros). Os narradores, sem poder de autoridade, contam histórias, suas, mas que ultrapassam as fronteiras da autoria, uma vez que todos podem manipulá-las. É a literatura ao alcance de todos aqueles que as ouvem como “leitores” e as recontam como “autores”.Assim o fez, por exemplo, o escritor e ensaísta argentino, naturalizado canadense, Alberto Manguel, que, em uma antologia de contos de horror organizada por ele, descreve de que forma narrava a seus filhos, quando pequenos, um dos clássicos do gênero, o conto “A mão do macaco”, do escritor inglês William W. Jacobs (1863-1943), uma história não necessariamente “infantil”, porém a figura do narrador era capaz de fazê-la acessível para leitores de qualquer idade. Manguel afirma que sempre contava essa história à noite e que, cada vez que a narrava, introduzia nela uma modificação. Acrescenta que a sua versão era “ainda mais terrível, pois enquanto contava a história, [...] emitia sons assustadores e andava de um lado para o outro, fazendo gestos e caretas aterradores”.Nesse aspecto, a narração nos remete à leitura performática, aquela na qual a “compreensão” é fundamentalmente dialógica, no sentido de que, segundo Paul Zumthor, “meu corpo reage à materialidade do objeto, minha voz se mistura, virtualmente, à sua” .Zumthor lembra que toda a literatura é fundamentalmente teatro . No entanto, “habituados como somos, nos estudos literários, a só tratar do escrito, somos levados a retirar, da forma global da obra performatizada, o texto e nos concentrar sobre ele”. Zumthor afirmava o seguinte: “de uma parte, amo os textos; de outra, a ‘literatura’, termo abstrato, tanto faz” .É na arte de narrar, em suma, que a voz ganha papel de destaque, a mesma voz que, de acordo com Giorgio Agamben, expressa uma negatividade (a memória da morte do animal), mas que conserva e recorda o vivente como morto, sendo ela, enquanto linguagem humana, a tumba das nossas recordações e a herança que deixamos .Mas, obviamente, para retomar Merleau-Ponty, “tampouco nas artes da fala a existência física dos sons, o traçado das letras no papel ou mesmo a presença de tais palavras segundo o sentido que lhes dá o dicionário, de tais frases feitas, é suficiente para produzir o sentido: a operação tem seu lado interior e toda a sequência das palavras não é senão seu sulco, não indica senão seus pontos de passagens [...]. Ao entrar num livro, sinto que todos os termos mudaram, sem que eu possa dizer em quê”.O certo é que não só “o sentido do livro pertence à linguagem”, como todo o sentido da literatura, por isso, “transmitida a obra pela voz ou pela escrita, produzem-se, entre ela e seu público, tantos encontros diferentes quantos diferentes ouvintes e leitores. A única dissimetria entre esses dois modos de comunicação se deve ao fato de que a oralidade permite a recepção coletiva”, afirma Paul Zumthor.Dentre os diferentes leitores ou ouvintes de literatura, não podemos nos esquecer da criança leitora que possui capacidade de interpretação tanto quanto o adulto, embora se utilize de parâmetros diferentes de leitura. Walter Benjamin já afirmava que as crianças não são muito diferentes de nós mesmos. Aliás, lembra Baudrillard, “no que diz respeito ao tempo real, [a criança] está definitivamente adiantada em relação ao adulto, que só pode parecer-lhe retardado, assim como, no terreno dos valores morais, só pode parecer-lhe um fóssil” .Por tudo, concluo estas reflexões reiterando que devemos ouvir as crianças, tanto quanto narrar/falar para elas.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

GERTRUDE STEIN: UM FRACASSO MODERNO

A arte moderna tem por objeto ela mesma. O que já se insinua em Van Gogh, com suas pinceladas visíveis como pinceladas. Se saltamos de Van Gogh a Mondrian, de pinceladas que não mais escondem sua natureza de pinceladas, mas ainda se agrupam de forma a imitar objetos reais, como casas, pessoas, árvores, chega-se a manchas de cor que são apenas manchas de cor, quadrados que são apenas quadrados, linhas que são apenas linhas. Antes de Van Gogh e Mondrian há, naturalmente, Cézanne, a composição da composição, o referente não como objeto, mas como sujeito. O objeto é a própria obra. Não se trata de arte sobre a arte, ou seja, de metalinguagem, ou da “arte pela arte” do esteticismo. Trata-se da arte para a arte. Numa palavra, autonomia. Autos-nómos: lei própria. A arte como ciência (pragmática) da estética. A arte como conhecimento da arte.Entre vários começos, isso se inicia com Poe (uma geração anterior a Cézanne) e o par O corvo / A filosofia da composição. O poema mais “romântico” da história é o menos romântico da literatura. Pois fruto, não da alma sensível do poeta, mas do controle das variáveis do poema. Sua construção começa pela escolha da letra o, por ser a mais grave, não pela gravidade da dor do personagem enlutado. E foi num jogo construtivo de círculos concêntricos a partir do o que Poe chegaria a todas as demais variáveis do poema, formais (poéticas), semânticas e narrativas (o corvo foi primeiro pensado como um papagaio, pois ele precisava de um ser falante – a fim de realizar para o personagem a gravidade sonora do o, que levou à gravidade ominosa da palavra nevermore –, sem poder, porém, introduzir outra pessoa, para sustentar a programada solidão extrema da cena). As famosas notas de Eliot a The waste land tem natureza equivalente, assim como as teorizações das várias vanguardas, chegando, no caso brasileiro, ao discurso sistemático de Cabral sobre sua obra, condensado no neologismo “antilirismo”. Se o poema de Poe fosse lido ingenuamente, seria lido erradamente. Se a arte das vanguardas não fosse discutida, descrita e afirmada, seria incompreensível, além de inaceitável (a autonomia moderna da arte nasce, de forma apenas aparentemente paradoxal, vinculada à necessidade de sua análise, vale dizer, de sua crítica).A arte como ciência e consciência da arte deriva, por sua vez, da arte como des-ilusão. Todo artista sempre soube que arte é artefato. Da Vinci, século XV: “A pintura é coisa mental”. E treino manual e técnico, a ser praticado nos ateliês de artes e ofícios. Técnica que, até o século XIX, esteve porém a serviço da imitação da realidade, logo, da ilusão figurativa (ou narrativa). O Inocêncio X de Velásquez é o retrato de Inocêncio X. O Inocêncio X de Francis Bacon é o retrato do Inocêncio X de Velásquez. Quando Poe escreve um perfeito poema romântico, ele o faz para demonstrar não se tratar de um perfeito poema romântico. A arte moderna é a arte da perda da possibilidade de ingenuidade. After such knowledge, what forgiviness?Gertrude Stein talvez tenha sido a mais lúcida pensadora da arte moderna entre os autores de prosa de ficção. Basta ler as poucas passagens referidas por Flora Süssekind no conciso e igualmente lúcido ensaio incluído como posfácio à recente reedição dos contos de Três vidas (SP, Cosacnaify, 2008, 241 pp., tradução Vanessa Bárbara; a [bela] edição conta, ainda, com uma bibliografia comentada de Süssekind – “Sugestões de leitura” – e com um apêndice, trazendo fragmentos do segundo conto, Melanctha, já traduzido integralmente no corpo do volume, agora em versão de Caetano Veloso, o que pouco lhe acrescenta). Stein sabia, talvez mais ou melhor do que qualquer outro prosador moderno, das demandas impostas por uma arte verbal des-iludida. O problema, porém, é que nem todas as demandas podem ser satisfatoriamente satisfeitas.Gertrude Stein é uma artista moderna que não segue exatamente o caminho inaugurado por Poe. Ela teoriza, é verdade, em textos e entrevistas. Mas, principalmente, incorpora ou tenta incorporar a des-ilusão da arte moderna à própria linguagem. Fazer isso na pintura tem um caminho evidente (ao menos depois de feito...): desfazer o ilusionismo tridimensional da perspectiva imposto à bidimensionalidade da tela, e em seguida desfazer o próprio figurativismo. Abstracionismo via cubismo. O problema que se coloca para a linguagem verbal é, porém, diferente. E maior.Três vidas equivalem, na obra de Stein, aos Dublinenses de Joyce, sua verdadeira obra inaugural (1909). Mas enquanto Joyce parte de Ibsen, Stein parte de Flaubert, aquele dos Três contos. O que importa aqui não é, porém, o fato de se tratar igualmente de três narrativas curtas, ou de as narrativas de Stein tomarem claramente como modelo um dos contos de Flaubert, Félicité, ou seja, a descrição da vida e da pessoa de uma criada. O que importa é a aguda percepção lingüística de Stein sobre as questões construtivas da prosa. É surpreendente, dada a anemia conceitual dos autores contemporâneos sobre sua própria arte (e talvez apenas neste sentido eles sejam, de fato, pós-modernos...), ler uma escritora discutindo as respectivas naturezas, as necessárias relações e os possíveis usos da frase vis à vis o parágrafo. Mas não é surpreendente, dada a lição moderna inaugural de Poe.A busca de Stein pela prosa moderna, ou pela modernidade da prosa, iniciada em Três vidas, teria seu resultado mais notório, não sem pertinência, em uma frase isolada.
2Gertrude Stein é conhecida por uma biografia extensa e uma frase curta. De fato, ela foi uma das mulheres certas na hora certa no lugar certo (um dos norte-americanos que fizeram a ponte entre os EUA e a Europa no início do século XX, ajudando a dar forma e peso às revoluções estéticas da época, e cuja lista vai da editora Sylvia Beach a poetas como Pound e Eliot), fazendo com que sua biografia sozinha pudesse justificar o interesse por seu nome. Mas ainda há a frase.“A rose is a rose is a rose”. Sua frase é justamente famosa porque sintetiza toda a modernidade. É o “to be or not to be” do século XX. Ela é aparentada, por exemplo, à reiterante pedra drummondiana, e também à afirmativa e intransitiva “flor é a palavra flor” de Cabral. Trata-se, nos níveis sintático e semântico (a frase de Stein o realiza em ambos) de afirmar a autonomia do verbo.Se na Antiguidade o verbo era demiúrgico, ligado a Deus na tradição judaico-cristã e às musas na tradição grega, na modernidade o verbo é, muito ao contrário, uma das marcas da impotência humana. Fim da metafísica, fim do positivismo, fim da física clássica, fim dos grandes conceitos, fim da crença no poder elucidador da linguagem. O princípio da incerteza de Heisenberg e o fim das certezas de Wittgenstein se unem para tornar a linguagem intranscendente.Logo, para adequá-la à autonomia materialista e anti-ilusória da arte moderna. Daí a frase de Stein não ser um lamento. Pois ela é, isto sim, o equivalente verbal do abstracionismo geométrico de Mondrian (culminância, por sua vez, do caminho aberto pelo cubismo de problematizar a perspectiva renascentista e, por fim, o próprio figurativismo): um quadrado amarelo é um quadrado amarelo é um quadrado amarelo, não uma parte do vitral de uma janela (como seria, por exemplo, em Veermer).Mas enquanto a pintura é por natureza assemântica, feita de manchas informes e intransitivas de tinta, que precisam portanto ser organizadas para mimetizar um referente, a palavra é por natureza semântica. Ou seja: como escrever uma palavra sem referir algo externo a ela? Casa. Teresa. Eu. Sonhar. E se não se pode escrever sem apontar, no próprio ato de fazê-lo, para algo que não é o texto, como escrever um texto que seja apenas texto e não representação (ou ilusão de representação)? Como realizar a ciência da arte com a linguagem verbal? Principalmente com a mais referencial das linguagens verbais, a prosa?A palavra significa a priori, ou em estado de dicionário. No caso de Mondrian ou Pollock, trata-se de não realizar a ilusão figurativa, deixando à tinta a condição de tinta, de cor. No caso de Stein, porém, trata-se não apenas de tentar desrealizar a “figuratividade” apriorística das palavras, mas também a ilusão dessa “figuratividade” apriorística. Seria apenas difícil, não fosse afinal impossível.A linguagem é, modernamente, impotente para dar a ver qualquer realidade que não a da própria linguagem (Gadamer via Wittgenstein: “O ser que pode ser compreendido é linguagem”).[1] Em relação ao mundo, às coisas do mundo, tudo o que se pode fazer (máxima possibilidade além do calar de Wittgenstein e do silêncio de Beckett) é então nomear. Uma rosa é uma rosa é uma rosa não porque uma rosa seja de fato uma rosa (ela é uma rosa apenas para quem a vê assim: para um inseto, por exemplo, é comida), mas porque reiterar o nome dado a uma parte o mundo é tudo que se pode fazer depois de nomear uma parte do mundo, se se quiser dizer algo realmente pertinente sobre isso. O resto é opinião, como diria Nietzsche.The sentence "Rose is a rose is a rose is a rose." was written by Gertrude Stein as part of the 1913 poem Sacred Emily, which appeared in the 1922 book Geography and Plays. In that poem, the first "Rose" is the name of a person. Stein later used variations on the sentence in other writings, and "A rose is a rose is a rose" is probably her most famous quote, often interpreted as meaning "things are what they are." In Stein's view, the sentence expresses the fact that simply using the name of a thing already invokes the imagery and emotions associated with it. As the quote diffused through her own writing, and the culture at large, Stein once remarked "Now listen! I’m no fool. I know that in daily life we don’t go around saying 'is a … is a … is a …' Yes, I’m no fool; but I think that in that line the rose is red for the first time in English poetry for a hundred years”.[2]“Nessa frase a rosa é vermelha pela primeira vez na poesia inglesa em centenas de anos”. De fato. Mas o sucesso, nos dois sentidos, da frase indica o fracasso do projeto de Stein. Pois se trata, na verdade, de um verso. Stein, porém, não pretendia enfrentar a modernidade da poesia, e sim da prosa.
3Quando dizemos poesia, dizemos poesia lírica. A poesia narrativa, isto é, a épica, foi simplesmente abandonada, não por acaso no início da Idade Moderna (o último grande poema épico em qualquer língua é Os Lusíadas, do século XVI). A função narrativa passa, então, a ser exercida pelo romance.A relação entre a épica e o romance equivale à relação entre a tragédia e o drama – e ajuda a explicar o fim da épica e a paralela ascensão do romance (o primeiro romance, Dom Quixote, é assim contemporâneo, na mesma segunda metade do século XVI, do último poema épico; para reforçar a substituição, ambos acontecem no mesmo lugar, a Península Ibérica).Romance é drama, épica é tragédia – na verdade, a tragédia é épica, no sentido de o teatro grego ser posterior à poesia, e tematizá-la. Em todo caso, se não existe mais a épica, tampouco existe mais a tragédia. Não que não haja mais grandes dramas no mundo. Tragédias, porém, não são grandes dramas.Tragédias são situações em que o herói luta contra o destino adverso. Ocorre que o destino, tragicamente, torna-se ainda mais adverso pela própria luta do herói. Se numa narrativa não-trágica ainda há heróis, eles são, porém, heróis circunstanciais. Pois lutam, não contra esse destino cuja natureza é fazer o herói, inescapavelmente, lutar contra si próprio, e assim ser sempre derrotado, pois esse era, afinal, seu destino (daí ser trágico): mas, então, apenas contra circunstâncias adversas.O fim da épica e da tragédia e sua substituição pelo romance e o drama marcam a culminância do longo processo histórico de introspecção e de individualização (e de introspecção porque de individualização) do homem ocidental, iniciado pelos próprios gregos (na comédia, contraponto da tragédia, e na lírica, contraponto da épica), intensificada pelos romanos (compare-se o Agamêmnon de Sêneca com a tragédia homônima de Ésquilo) e levada à sua máxima realização pela modernidade (daí o derradeiro grande herói trágico da literatura, Hamlet, ser também o primeiro grande herói moderno: um personagem trágico que parece ter lido Freud; na verdade, foi Freud que leu a modernidade introspectiva de Hamlet).O abandono da épica e da tragédia leva, enfim, à ascensão do romance e do drama. Narrativa não-trágica, o romance é, na verdade, drama, ou seja, ação (no sentido etimológico grego). Descrição de fatos e feitos, de pessoas (palavra que tem a mesma origem de personagem, persona) e suas circunstâncias (parafraseando Ortega y Gasset: “o homem é o homem e suas circunstâncias”; ao menos, assim é o homem moderno).Se a prosa de ficção é, então, a mais referencial das linguagens verbais, como torná-la autônoma, separada do referente, abstrata (do latim abstrahere, separar)?O fracasso de Stein começa já em Três vidas. Não por não serem contos bem construídos e escritos. Eles o são até em demasia. Ou seja, na capacidade realista, ou século-dezenovista, de reconstruir personagens verossímeis, convincentes e consistentes de uma classe social distinta daquela da autora, com destaque para a Anna de A boa Anna (pp. 10-79). Mas Flaubert já o fizera em Félicité. E não era absolutamente o que Stein queria, ou seja, simplesmente imitá-lo (isto caberia a – muitos – outros escritores). Stein queria algo que Flaubert não quis, a narrativa que narra mas não narra, que ilude mas des-ilude, que refere mas é autônoma. Em Três vidas, o resultado é um certo hibridismo.Em primeiro lugar, há essa prosa flaubertiana, pois consciente, já em Flaubert (contemporâneo de Cézanne), da necessidade de isolar, de fragmentar, de autonomizar a frase do parágrafo. “Uma frase que levanta pesados blocos de matéria”, nas palavras de Proust, e que em Stein se fragmenta ainda mais:Melanctha Herbert buscava paz e tranqüilidade, mas encontrava apenas novos problemas.[...]Ele só aparecia de vez em quando para visitá-la.Já fazia muitos anos que Melanctha não tinha notícias dele.[...]Melanctha não gostava dos pais, que de fato a consideram um verdadeiro incômodo. (p. 75)Em segundo lugar, a isso se acrescem frases repetidas ou reiteradas (a reiteração – forma evidente de autonomização de uma frase – será uma das maiores constantes da literatura moderna, presente de modos variados em Joyce, Eliot, Cabral, entre tantos outros); em terceiro lugar, há um adjetivismo propriamente steiniano, que pretende suspender a narrativa, a ação e a descrição, pela presentificação do retrato, da apresentação: “Cuidou de Rose e foi paciente, submissa, apaziguadora e incansável” (p. 71); “Rose Johnson era uma preta legítima, muito alta, rabugenta, burra, infantil e bela” (p. 72); “Melanctha Herbert era uma mulata clara, elegante, esperta e atraente” (p. 72).Em complemento à discussão do parágrafo versus a frase, Stein de fato discute a narrativa versus o retrato, e o passado versus o presente, visando a autonomia anti-ilusionista da arte moderna.[As] observações que norteiam o comentário [de Stein] a respeito de Picasso funcionam igualmente como uma espécie de exposição sintética de alguns aspectos de seu método particular de escrita – a ênfase na simplicidade e nas linhas que, em Picasso, Braque, Masson, vêm e vão, misturam-se, desenvolvem-se e se destroem; a compreensão de que “uma coisa sem progresso é mais esplêndida que uma coisa que progride”, o que dimensionaria, igualmente, uma escrita baseada na insistência, na permutabilidade, no “beginning again”, na conjugação da noção de paisagem à de composição em movimento, à de um presente contínuo; e o elogia do século XX porque nele, na sua opinião, as coisas se viram destruídas como nunca antes, “tudo quebra”, “nada continua”, “tudo se isola”.[3]Menos a própria linguagem verbal. O fracasso de Stein, talvez a melhor e mais sistemática tentativa nesse sentido, aponta então para uma aporia.Ou várias. Em primeiro lugar, nem todas as linguagens são modernizáveis do mesmo modo (assim, falar no “cubismo” da prosa de Stein é uma impropriedade). Em segundo lugar, nem todas as linguagens são afinal modernizáveis, a depender do que se entenda por modernidade.Aqui é preciso, então, afinar a afirmação inicial. A arte modernista tem por objeto ela mesma. Neste caso, há afinal uma lição de limitação e outra de permanência.Pois a prosa de ficção é, de certa forma, a mais moderna das linguagens verbais, ao ser a primeira. Qual o grande contista grego? O maior romancista romano? Não há contistas gregos ou romancistas romanos porque a prosa de ficção não existia na Antiguidade. Ou na Idade Média (em que romance se refere a um tipo de poema narrativo):Com o Decameron [século XIV], pela primeira vez na história das línguas novas derivadas do latim aparece a prosa literária. Construindo parágrafos longos e complicados, Boccaccio queria visivelmente imitar seus queridos autores latinos, sobretudo Cícero.[4]Por um lado, em termos históricos, ao nascer com a modernidade, a prosa de ficção, ao contrário, por exemplo, da poesia lírica, já presente na literatura grega desde Arquíloco (século VII a. C.), cumpre uma função, o aggiornamento da própria função narrativa (que os vários povos e os vários tempos realizam de forma diferente, mas sempre realizam, do mito de origem em volta da fogueira à própria tragédia grega), o que explicaria sua perenidade. Philip Roth, talvez o mais importante romancista contemporâneo, não está muito longe na forma de Cervantes. Ao menos, está muito menos distante na forma do que está distante no tempo. Por outro lado, em termos lingüísticos, a linguagem verbal é por natureza referencial, logo, não-autonomizante, apesar mesmo do que tenha tal referencialidade de ilusória, a acreditar nos wittgensteinianos. O resultado é a permanência irredutível da ilusão figurativa na linguagem verbal, ao lado da permanência moderna da prosa de ficção.
4Haroldo de Campos enfrentou o problema sem na verdade enfrentá-lo, nas Galáxias. Pois a sua “prosa do significante” (logo, não do significado, ou da referência) não comporta uma verdadeira narrativa. Tampouco se constitui numa verdadeira poética (pois, em meus próprios termos, possui um dos elementos definidores da linguagem poética, a recursividade, mas não o segundo, a discrição – muito menos a interdeterminação de uma pela outra). Nem prosa de ficção, pois a reiteração dos significantes se dá à custa da narratividade, nem “prosa poética”, pois apenas parcialmente poética: enfim, prosa poetizada. Do ponto de vista de Stein, a mera poetização da prosa (caminho aberto por Joyce no Finnegans Wake) não pode ser uma solução, pois a materialidade lingüística adquirida se realiza ao preço da perda da narratividade. Daí Finnegans Wake ser menos romance do que Ulisses. Daí, afinal, porque Ulisses é muito mais influente no romance posterior: é como se os romancistas não pudessem reconhecer, no Finnegans Wake, um desenvolvimento de sua arte, como o é inquestionavelmente Ulisses, mas algo que está além ou fora do campo dessa arte. Algo semelhante se deu depois do cubismo e do abstracionismo, com o retour a l’ordre proposto pelo próprio Picasso. Neste sentido, o equivalente ao Finnegans Wake é a obra de Duchamp. Com a diferença de que Duchamp, ao contrário do próprio Finnegans Wake, entrou afinal para a corrente principal das artes plásticas, via arte conceitual (Duchamp repetido como farsa) – o que afinal explicaria grandemente a grande confusão das artes plásticas contemporâneas, que parecem poder adquirir relevância e sentido, tanto estéticos quanto sociais, apenas ou principalmente através de sua inserção mercadológica. Mas isto é outra (apesar de a mesma) história.Stein jamais resolveria satisfatoriamente a questão. Há, porém, modos e modos de não se responder a uma pergunta. Há, por exemplo, o modo daquele que sequer faz a pergunta; o daquele que a faz, mas nada responde; o daquele que a faz e a responde, mas apenas aparentemente de forma pertinente; ou o modo do cientista que não pode comprovar sua resposta, porque consegue demonstrar tratar-se de uma resposta falsa. Ao provar que sua resposta é falsa (coisa bem diferente de afirmar que a resposta falsa é verdadeira, como Lamarck), ele mapeia a realidade. Se ainda não se sabe como tal coisa é, já se sabe melhor como não é. E saber consistentemente como não é ou não pode ser alguma coisa é um forma de conhecê-la. Gertrude Stein, afinal – ainda que não do modo que acreditava ou pretendia tê-lo feito – fez, talvez, a melhor ciência possível da arte narrativa contemporânea. A ciência de um fracasso. Ciência, também, de uma irredutível permanência (malgrado ela mesma). A permanência da referência narrativa, contra a busca pela autonomia
utópica do modernismo, e contra a condenação à autonomia autista do relativismo.
Luis Dolhnikoff

terça-feira, 6 de julho de 2010

VARIAÇÕES SOBRE O MESMO TEMA

Proliferam post-mortem os cadernos especiais rodados a todo vapor sobre o escritor José Saramago – o único português a ganhar um “Prêmio Nobel de Literatura”. Nas montanhas de elogios erguidas em sua memória, nas cascatas de louvações derramadas sobre seu cadáver, foram dissolvidas as imprecações contra Israel e seu povo pelo inveterado stalinista, cujo comunismo, segundo sua pitoresca expressão, estava gravado em seu DNA – uma atualização do velho discurso da herança do sangue. Examinemos, por exemplo, essa “pérola” da especialista Leyla Perrone-Moisés: “Quando José Saramago chegar ao céu, Deus pai lhe fará cara feia, pois o escritor fartou-se de denegri-lo em seus romances. Mas Deus filho, que era também homem, advogará a seu favor, porque Saramago foi um humanista, quer em suas ideias, quer na prática de algumas das maiores faculdades humanas, a de imaginar e de narrar. [...] Qualquer que seja a posição dos leitores com relação às opiniões políticas do homem Saramago, ninguém pode acusá-lo de ter feito literatura partidária ou militante. O romancista defendeu suas ideias, não com pregação política ou lições de moral, mas por meio da melhor literatura de ficção [...]”.
Ninguém poderá dizer se Saramago será recebido no céu por Deus pai ou por Deus filho… Ou se baterá em outra porta, sendo acolhido pelo Diabo em pessoa. Mas dizer que ele não defendeu suas idéias com pregação política é reduzir de maneira pouco rigorosa a atividade do escritor aos seus livros de ficção, ignorando deliberadamente que Saramago não se fartava de pregar suas idéias políticas em artigos, entrevistas, postagens, em frutuosa produção literária de caráter militante e partidário. Saramago pontificava sobre cada acontecimento político, lançando opiniões sempre balizadas pelo seu materialismo dialético. Por exemplo: 15 jan. 2009: “A notícia queima. O mufti da Arábia Saudita, máxima autoridade religiosa do país, acaba de emitir uma fatua que permite (permitir é um eufemismo, a palavra exacta deveria ser impor) o casamento de meninas na idade de 10 anos. O dito mufti (hei-de lembrar-me dele nas minhas orações) explica porquê: porque a decisão é “justa” para as mulheres, ao contrário da fatua anteriormente vigente, que havia fixado em 15 anos a idade mínima para o casamento, o que Abdelaziz Al Sheji (esse é o nome) considerava “injusto”. Sobre as razões deste “justo” e deste “injusto”, nem uma palavra, não se nos diz sequer se as meninas de 10 anos foram consultadas. É certo que a democracia brilha pela inexistência na Arábia Saudita, mas, num caso de tanto melindre, poderia ter-se aberto uma excepção.

Enfim, os pedófilos devem estar contentes: a pederastia é legal na Arábia Saudita. Outras notícias que queimam. No Irão foram lapidados dois homens por adultério, no Paquistão cinco mulheres foram enterradas vivas por quererem casar-se pelo civil com homens da sua escolha… Fico por aqui. Não aguento mais.” (“Lapidações e outros horrores”). Aqui, o materialismo dialético de Saramago coincide com o humanismo, na defesa das vítimas da pedofilia islâmica (“pederastia” tem outras conotações) e da sharia. Mas trata-se apenas de coincidência. Quando os fanáticos do Islã se voltavam contra Israel, sua guerra santa era justificada por Saramago. A jihad ganhava sentido contra os judeus, e o ateísmo de Saramago aí se dissolvia. O escritor revestia-se nesses momentos de uma nova pele, paradoxalmente fanática, e sua língua tornava-se ácida e viscosa. Não deixa de ser curioso como membros destacados da comunidade judaica brasileira não se furtaram a engrossar os louvores a Saramago pelas mídias, com exceção das do Vaticano, coerentes com sua tradição reacionária; e pela intelligentzia, cada vez mais antissemita. Seu editor brasileiro, Luiz Schwartz, só teve palavras doces e carinhosas na crônica de despedida que postou: Saramago era um homem generoso, um pensador brilhante, o padrinho de sua filha, etc. No carinho pelo amigo, sábio, querido Saramago, certamente contava o fato de que “ele era nosso autor mais vendido em literatura estrangeira”. Os 24 títulos do escritor lançados pela Companhia das Letras somam, aproximadamente, 1.400.000 exemplares vendidos. Em nenhum outro país, fora a Espanha, onde morava, Saramago vendia tanto quanto no Brasil. Um sintoma inquietante.
O escritor Moacir Scliar, em “depoimento emocionado dado com exclusividade ao Terra” (e a mais uma dúzia de veículos), declarou que “José Saramago [...] era não apenas um grande escritor, não apenas um intelectual militante, como também um ser humano [sic]. De seu trabalho literário dão testemunho o Nobel que recebeu, e que projetou o nosso idioma no mundo, como, sobretudo, a qualidade de sua obra literária. [...] Saramago era também um comunista de carteirinha, uma posição a que chegou em grande parte por ter origem humilde (foi operário) e vivido sob uma das ditaduras mais persistentes da modernidade, o regime salazarista. E, finalmente, era uma grande pessoa, um homem sensível, afetivo.”.
Até Marcos Guterman, que em sua visão do antissemismo atual no belo artigo “O velho antissemitismo não cansa de se reinventar” incluíra Saramago, acabou, dez dias depois, com a morte deste, revendo sua opinião em “A morte de um gigante”, prevenindo seus leitores contra os detratores de Saramago: “[...] Seu comunismo militante foi usado muitas vezes por seus detratores para desmerecer sua obra, o que é uma injustiça aliás típica de nosso tempo. Saramago era um crítico da ocultação retórica da tirania, quer fosse em Israel ou em Cuba. Mesmo que tenha cometido exageros ou poupado Fidel Castro, Saramago nunca se ausentou, transformando-o num dos raros intelectuais públicos, daqueles sem vínculos senão com sua consciência. Por essa razão, Saramago deve se transformar num clássico, por exprimir como poucos as contradições de seu tempo.”
Ficamos aí sabendo que para defender Saramago de seus detratores vale equiparar Israel com Cuba, e que também em Israel vigora uma “tirania”. Ainda que Saramago tenha rompido com Fidel Castro depois dos últimos fuzilamentos, em mais uma demonstração de seu humanismo tardio, é curioso como a morte melhora as pessoas. A literatura de um tal humanista nunca me interessou - desde que sua “obra-prima” Memorial do Convento encheu-me de tédio. Adquiri depois num sebo por R$ 5,00 um exemplar de O conto da ilha desconhecida autografado por Saramago. O leitor não hesitou em descartar o volume com o carimbo do Prêmio Nobel. Isso diz tudo sobre o valor desse prêmio, sobre o amor de leitor e livreiro a livros autografados e sobre a “permanência” da literatura de Saramago. Creio que também descartei o exemplar. Tenho uma amiga que jogou ao lixo todos os livros de Saramago após ler suas declarações sobre Israel. Neste país, os leitores coerentes devolveram todos os seus Saramagos às livrarias. Recordemos, pois, o que esse gigante humanista dizia de Israel.
3 mai. 2002: no jornal Público Saramago compara o conflito Israel x palestinos com a cena bíblica de David x Golias, trocando as posições: Israel “se tornou num novo Golias”; aquele “lírico David que cantava loas a Betsabé” seria “encarnado agora na figura gargantuesca de um criminoso de guerra chamado Ariel Sharon [...] que lança a ‘poética’ mensagem de que primeiro é necessário esmagar os palestinianos para depois negociar com o que deles restar”. Saramago comparava então Ramallah ao campo de concentração nazista de Auschwitz: “Nós podemos comparar (a situação palestina) com o que aconteceu em Auschwitz.” As situações prestam-se mesmo a comparações, já que os palestinos lançam bombas contra Israel; contam com o suporte das brigadas terroristas financiadas pelo Irã, com milhões de militantes espalhados em todo o mundo; dispõem de cobertura favorável às suas ações da parte de toda a mídia árabe e muçulmana e de quase toda a mídia ocidental; são amparados pela ONU com a maior parte da ajuda humanitária arrecada no mundo… Enfim, exatamente como os judeus em Auschwitz.
13 out. 2003: em entrevista a O Globo, Saramago afirmou: “Vivendo sob as trevas do Holocausto e esperando ser perdoados por tudo o que fazem em nome do que eles sofreram parece-me ser abusivo. Eles não aprenderam nada com o sofrimento dos seus pais e avós.” Aqui, ele confunde deliberadamente, como se fossem as mesmas pessoas (“eles”), os judeus que sofreram o Holocausto, os judeus que descendem daqueles, os israelenses que “oprimem” os palestinos, os judeus e israelenses que lutam contra essa “opressão”, os judeus e israelenses que não se envolvem no conflito, em várias gerações de israelenses e de judeus. Ou seja: sua condenação pesa sobre qualquer judeu em qualquer época pós-Holocausto, em qualquer lugar do mundo, qualquer que seja sua posição ideológica. O nome mais comum dessa confusão generalizada e generalizante é racismo, embora, em defesa de Saramago, diversos autores tenham afirmado que ele não se insurgia contra os judeus, mas contra a política de Israel. Mas ele foi bem explícito em muitas outras declarações. Outros exemplos:
31 dez. 2008: no artigo “Israel”, Saramago afirmou: “Não é do melhor augúrio que o futuro presidente dos Estados Unidos venha repetindo uma e outra vez, sem lhe tremer a voz, que manterá com Israel a ‘relação especial’ que liga os dois países, em particular o apoio incondicional que a Casa Branca tem dispensado à política repressiva (repressiva é dizer pouco) com que os governantes (e porque não também os governados?) israelitas não têm feito outra coisa senão martirizar por todos os modos e meios o povo palestino. Se a Barack Obama não lhe repugna tomar o seu chá com verdugos e criminosos de guerra, bom proveito lhe faça, mas não conte com a aprovação da gente honesta. Outros presidentes colegas seus o fizeram antes sem precisarem de outra justificação que a tal “relação especial” com a qual se deu cobertura a quantas ignomínias foram tramadas pelos dois países contra os direitos nacionais dos palestinos. Ao longo da campanha eleitoral Barack Obama, fosse por vivência pessoal ou por estratégia política, soube dar de si mesmo a imagem de um pai estremoso. Isso me leva a sugerir-lhe que conte esta noite uma história às suas filhas antes de adormecerem, a história de um barco que transportava quatro toneladas de medicamentos para acudir à terrível situação sanitária da população de Gaza e que esse barco, Dignidade era o seu nome, foi destruído por um ataque de forças navais israelitas sob o pretexto de que não tinha autorização para atracar nas suas costas (julgava eu, afinal ignorante, que as costas de Gaza eram palestinas…) E não se surpreenda se uma das suas filhas, ou as duas em coro, lhe disserem: ‘Não te canses, papá, já sabemos o que é uma relação especial, chama-se cumplicidade no crime’.” Aqui, Saramago deixava claro que considerava todo israelense (e todo israelita) – “governantes (e porque não também os governados?)” – carrascos e criminosos, massacradores do inocente povo palestino… Nenhuma palavra contra as atividades criminosas e genocidas do Hamas que já governava os palestinos de Gaza: embora fosse um partido islâmico que defendia a sharia, e ainda que Saramago condenasse “todas” as religiões e em especial as barbáries cometidas em nome do islamismo, no caso do movimento islamita pela “libertação da Palestina” seu silêncio era ensurdecedor.
22 jan. 2009: “O processo de extorsão violenta dos direitos básicos do povo palestino e do seu território por parte de Israel tem prosseguido imparável perante a cumplicidade ou a indiferença da mal chamada comunidade internacional. O escritor israelita David Grossmann [...] escreveu [...] que Israel não conhece a compaixão. Já o sabíamos. Com a Tora como pano de fundo, ganha pleno significado aquela terrível e inesquecível imagem de um militar judeu partindo à martelada os ossos da mão a um jovem palestino capturado na primeira intifada por atirar pedras aos tanques israelitas. Menos mal que não a cortou. Nada nem ninguém, nem sequer organizações internacionais [...] conseguiram, até hoje, travar as acções mais do que repressivas, criminosas, dos sucessivos governos de Israel e das suas forças armadas contra o povo palestino. [...] Enfrentados à heróica resistência palestina, os governos israelitas modificaram certas estratégias iniciais suas, passando a considerar que todos os meios podem e devem ser utilizados, mesmo os mais cruéis, mesmo os mais arbitrários, desde os assassinatos selectivos aos bombardeamentos indiscriminados, para dobrar e humilhar a já lendária coragem do povo palestino, que todos os dias vai juntando parcelas à interminável soma dos seus mortos e todos os dias os ressuscita na pronta resposta dos que continuam vivos” (“Israel e os seus derivados”). Aqui, o terrorismo ganha nomes lindos: “ressurreição”, “pronta resposta”, enquanto Israel adquire contornos de Alemanha nazista, com torturas, governos criminosos em sucessão, crueldade e violência indiscriminadas. Perto desse painel de Estado Judeu “comedor de criancinhas”, os terroristas palestinos que trucidavam os comerciantes árabes que se relacionavam com judeus no velho mercado árabe a golpes de machadinhas; os homens-bombas que explodiam crianças em ônibus e escolares, tornam-se verdadeiros santos e mártires da causa – a religiosidade aqui é permitida pelo ateu Saramago.
12 jan. 2009: “Imaginemos que, nos anos trinta, quando os nazis iniciaram a sua caça aos judeus, o povo alemão teria descido à rua, em grandiosas manifestações que iriam ficar na História, para exigir ao seu governo o fim da perseguição e a promulgação de leis que protegessem todas e quaisquer minorias [...]. Imaginemos que, apoiando essa digna e corajosa acção [...] os povos da Europa desfilariam pelas avenidas e praças das suas cidades e uniriam as suas vozes ao coro dos protestos levantados [na Alemanha]. Já sabemos que nada disto sucedeu nem poderia ter sucedido. Por indiferença, apatia, por cumplicidade táctica ou manifesta com Hitler, o povo alemão, salvo qualquer raríssima excepção, não deu um passo, não fez um gesto, não disse uma palavra para salvar aqueles que iriam ser carne de campo de concentração e de forno crematório, e, no resto da Europa, por uma razão ou outra (por exemplo, os fascismos nascentes), uma assumida conivência com os carrascos nazis disciplinaria ou puniria qualquer veleidade de protesto. Hoje é diferente. Temos liberdade de expressão, liberdade de manifestação e não sei quantas liberdades mais. Podemos sair à rua aos milhares ou aos milhões [...] podemos exigir o fim dos sofrimentos de Gaza ou a restituição ao povo palestino da sua soberania e a reparação dos danos morais e materiais sofridos ao longo de sessenta anos, sem piores consequências que os insultos e as provocações da propaganda israelita. [...] Por sua vez, o exército israelita, esse que o filósofo Yeshayahu Leibowitz, em 1982, acusou de ter uma mentalidade “judeonazi”, segue fielmente, cumprindo ordens dos seus sucessivos governos e comandos, as doutrinas genocidas daqueles que torturaram, gasearam e queimaram os seus antepassados. Pode mesmo dizer-se que em alguns aspectos os discípulos ultrapassaram os mestres. Quanto a nós, continuaremos a manifestar-nos.” (“Imaginemos”). Aqui, enfim, Saramago manifesta seu ódio ardente aos judeus, que ele considera como genocidas “piores que os nazistas” – merecendo que o mundo inteiro se insurja contra Israel, quiçá com a ajuda da futura bomba atômica iraniana, para extirpar de vez a “mentalidade judeunazista”, colocando “a restituição ao povo palestino da sua soberania e a reparação dos danos morais e materiais sofridos ao longo de sessenta anos” – incluindo, claro, uma justa limpeza étnica em Israel para repovoar a Palestina com os cinco milhões de refugiados palestinos espalhados pelo mundo, e que não ultrapassavam os 300 mil quando eram realmente refugidos – há 60 anos. Sempre utilizando frases de impacto que os judeus pacifistas adoram lançar contra Israel para que se voltem duplamente contra Israel e os judeus em geral (incluindo aqueles que lançaram essas palavras), José Saramago utilizou em sua subliteratura partidária e militante todos os clichês do antissemitismo contemporâneo, que se concentra no ódio a Israel.

sábado, 3 de julho de 2010

O inconfessável: escrever não é preciso


Fazer o que seja é inútil. Não fazer nada é inútil. Mas entre fazer e não fazermais vale o inútil do não fazer.João Cabral, adulterado, “O artista inconfessável”, em Museu de tudo, 19751. Ao contrário do que usualmente se supõe, a passagem dos anos não tem obrigação nenhuma de revelar algum grande autor ou mesmo um autor apenas razoavelmente bom. A regra estava valendo para o passado, que revelou tantos autores extraordinários, quanto vale para os próximos cem ou mil anos, que talvez nunca vejam nenhum outro, assim como podem ver centenas deles. Se grandes autores apareceram com regularidade, ou aparecerão da mesma forma, isso são contingências, não necessidade ou decorrência lógica de um conjunto quantitativo sempre crescente de escritos. Antologias de autores promissores ou novos lançamentos de escritores contemporâneos não cessam de aparecer, por piores que sejam. Alguns são jovens, outros são célebres, outros são simples amigos do editor: qualquer coisa basta. Por isso mesmo, nada é suficiente como critério de edição, e o publicado basicamente ajuda a encobrir a percepção evidente de que não há nada de relevante sendo escrito, nem mesmo há indícios de que essa relevância possa ser descoberta outra vez no domínio da literatura. Não parece haver nada relevante sendo escrito, essa é a mais provável razão desse poço, desse mar de coisa escrita. A suposta necessidade de aparecimento de novos grandes autores é, no melhor dos casos, apenas uma reação à situação de contingência radical em que vivemos. Nada garante, entretanto, que, no futuro, leremos algum novo grande autor, a despeito de todos os grandes que existiram antes. A despeito mesmo da probabilidade amigável de que, em um mundo sem fim, algum escritor decente se ponha de pé, e ande, assim como em um mundo de macacos há boa probabilidade de que um deles possa tomar um desvio inesperado em sua evolução e virar homem. Probabilidade, mesmo uma boa probabilidade, não é necessidade, mas apenas média projetada de eventos. Conclui-se que um grande autor é o resultado imponderável de um conjunto de circunstâncias e ocorrências inesperadas, sem qualquer garantia de repetição de seus termos de existência. A suposta necessidade, já agora como hipótese medianamente ruim, se apresenta como um efeito psicológico primário associado a uma estratégia usual de mercado que finge lançar novos produtos “definitivos” a cada dia. Isso posto, é certo que nenhum crime contra natura foi cometido, quando se percebe como são poucos os escritores brasileiros surgidos nos últimos trinta anos a que se poderia aplicar a categoria de autor a sério. Agora, na pior das hipóteses possíveis, as publicações de novos, bem como as novas publicações, salvo raríssimas e imponderáveis exceções, nascem da crença efetiva de que eles tenham realmente qualidades de grande autor. Evidentemente, há pouco a fazer em casos assim. Pode-se, por exemplo, tentar falar mal da antologia ou dos autores em questão, mas não há a menor chance de que eles não se julguem perseguidos pessoalmente por um crítico desonesto e mau-caráter. Um ou outro (os melhores deles), com muita sorte, deixará de escrever, mas a maioria absoluta – ao menos enquanto continuar sem sucesso – tratará apenas de aumentar a cumplicidade e a camaradagem que guarda entre si (cf. Leopardi, Pensieri: il mondo è una lega di birbanti contro gli uomini da bene). Se me perguntarem o que imagino para definir a seriedade de um escritor, o que me vem primeiro à cabeça é justamente a ideia de alguém que busca resistir à vulgarização do escrito. Isto é, penso em alguém que admite, mesmo contra seu mais íntimo desejo e sua mais teimosa vontade, que absolutamente nada o obriga a escrever, a não ser uma falácia lógica tomada como falso imperativo de cultura. Uma vez que seja assim, o escritor sério deve pensar mil vezes antes de se pôr a escrever. De preferência, como efeito de ter pensado seriamente no assunto, deve inclinar-se a não fazê-lo. Não admira, desse ponto de vista, que um pensador sério como Giorgio Agamben imagine que Bartleby, o escrivão que se recusa a escrever, seja o melhor exemplo de um escritor que conhece sua contingência e não abusa de sua condição, fazendo o que faria melhor desde que não o fizesse. Quer dizer, quanto melhor fosse potencialmente o escritor, menos poderia sê-lo em ato, por absoluto pudor de tornar-se apenas um cotejador e copiador de uma montanha de outros escritos, já produzidos, sem senso nem motivo, a não ser o de girar a própria engrenagem burocrática de escrever.10. Mas não precisamos chegar à inteligência superior de Bartleby ou àquela que o criou, ele mesmo personagem de uma obra-prima altamente improvável. Se escrever não é preciso, alguma autocrítica não faria mal ao aspirante de escritor ou ao escritor de ofício. Ao contrário, faria um bem enorme, a ele e a nós. Luís António Verney, homem de não poucas luzes, insistia em que o pretendente talvez fosse mais útil, ou menos irrelevante, trabalhando com rigor em alguma outra coisa mais à medida de seu talento, que fosse igualmente mais útil à república. Se escrever não é preciso, devemos absolutamente concordar com Horácio quando nos diz que não é razoável retirar do poço os escritores que tiverem o bom senso de se atirar lá, fingindo inspiração ou loucura. Simplesmente não é civil salvar escritores da morte prematura. Pessoalmente, por incorrigível vezo de criação católica, sugeriria aos jovens pretendentes que, se não têm um poço por perto, tentassem antes a vida como copy desk, ou como tradutor de algum texto de escritor reconhecidamente superior de outros tempos e lugares (se bem que, muito provavelmente, nesse caso, eles acabariam por arrastá-lo para a mediocridade em que vivem), ou mesmo, em último caso – mas último caso mesmo –, que puxassem o saco de alguém que lhes descolasse alguns trabalhinhos freelance em uma página de cultura ou em uma editora mainstream. Quaisquer dessas atividades modestas – mas não baixas, pois apenas puxar o saco é verdadeiramente baixo, embora não tanto quanto escrever porcamente (cf. Bernardo Soares e o horror dos aleijões da página mal escrita) –, além de tantas outras atividades verdadeiramente medíocres que podemos imaginar, valem muito mais a pena do que escrever, tanto em termos públicos quanto pessoais. Ao menos, são atividades seguramente menos irritantes para os outros, obrigados (por educação ou por sentimento cristão) a ler tanta irrelevância escrita. Mas deixar de escrever, sobretudo, será (seria) um enorme alívio para o próprio pretendente a escritor, que se livraria do fardo de afetar um talento que não possui e de ter de se expor continuamente à crítica de algum detrator malvado. Enfim, não adianta disfarçar; escrever, em geral, é apenas deixar-se arrastar pela maré dos lugares-comuns subletrados. É anunciar mais cedo a própria inexistência, a própria morte irreparável como autor. Publish and Perish, disse muito propriamente Marjorie Perloff.15. Paradoxalmente, uma maneira de adiar a compreensão simples da absoluta não necessidade de escrever é pretender humildemente que escrever seja justamente apenas mais uma atividade entre outras, e o escritor, alma singela, apenas mais um homem comum, por mais coquette que se apresente em seus gestos e maneiras. Chamo a isso especificamente “pretensão”, e não, por exemplo, “desejo”, porque não há um só sujeito que afirme que escrever seja uma coisa qualquer, que saiba também tirar a consequência óbvia dessa afirmação: a de que seja uma atividade tonta, indiferente e desprovida de valor pessoal ou público, como a maioria absoluta de todas as outras atividades comuns e quaisquer. Se não se tratasse de pura afetação arrivista, o escritor pretendente a gente comum teria de concluir que a inserção da literatura no patamar da vida média se traduz como uma simples rotina, um automatismo, cujo pressuposto (necessário, portanto) é apenas a adesão ao lugar-comum. Enquanto tal, é basicamente forma de alienação da vontade própria em favor, digamos, do ganha-pão, o que definitivamente nada tem a ver com um projeto de criação artística, autocriação pessoal ou intervenção pública por meio da literatura produzida. O resultado, pois, da pretensão da escrita como atividade ordinária é a de que escrever não apenas não constitui autores, enquanto criadores, como, ao contrário, submete-os rapidamente ao movimento da prática tosca e maquinal de reprodução do mundo no estado de merda no qual existe. Esse maquinismo fabril-escriturário tem como desfecho infeliz um mar de escritos. Nessas circunstâncias, que papel feio não fazem os escritores! Para fazer deles uma imagem apenas ruim, e não odiosa, teríamos de vê-los como um amontoado de corpos devolvidos à praia, pois, como alertava o quinhentista Bernardim Ribeiro, o mar não sofre coisa morta. Na praia inglória, findam sobretudo jovens escritores, novas promessas, futuros talentos. De modo algum, entretanto, devemos nos comover, pelo mesmo motivo que repreendia Virgílio a Dante, enquanto observavam os sofrimentos dos precitos: é simplesmente justo. Ademais, não faz a menor diferença para nós: juventude, novidade e futuro são apenas faces simpáticas do mesmo engano que dissolve a qualificação ou a excelência do autor na banalidade do escrito. Exatamente porque escrever não é preciso, escrever pode ser tudo menos uma atividade entre outras quaisquer. Escrever é um ato que, de saída, já deve uma explicação: ele tem de reinventar sua própria relevância, a cada vez, ou então se condenar a ser apenas uma ideia torta de novidade: o retorno do mesmo, piorado. Cada escritor, conformado com a condição de exercer uma atividade ordinária, dissolve sua vida em uma linha que enuncia inexoravelmente o mesmo: o escrito é apenas uma forma de morte vil. Isto é o que se pode dizer dos autores e da literatura mediana, que é o único ofício que não admite mediania virtuosa: Horácio revém. Ou seja, em matéria literária, ou se é radicalmente bom, ou se é radicalmente imprestável. Da crítica, entretanto, não se pode dizer o mesmo. Longe de se atirar com a força e a ingenuidade estúpida da juventude contra o mar de quantidade que a devora e contra o qual nada pode (a não ser acreditar baixamente que a banalidade é a destinação universal da escrita), a crítica foi sendo morta na cama, enquanto dormia, e seu corpo paulatinamente sendo substituído por simulacros que Foucault chamou certa vez de meninos bonitos da cultura. A especialidade dos meninos bonitos, na perfeita inversão que caracteriza a atividade dos invasores de corpos, não é evidentemente a crítica, mas seu contrário: o colunismo social. A crise aqui é a total falta de crise. A desistência da crise é a matéria básica de que se formam os bodysnatchers durante o sono da crítica. Eles são sempre gente boa, simpática, quase variantes sem mandato de vereadores e deputados, cuja habilidade profissional se mede pelo coeficiente de agilidade com que barganham os votos dos leitores pelo tráfego entre os agentes institucionais da literatura, vale dizer, grupos universitários de poder, lobbies de editoras, cadernos culturais da grande mídia, revistas literárias com algum público ou prestígio etc. O coeficiente de barganha se nutre da capacidade de estabelecimento de um círculo de cumplicidade, autoproteção e confirmação mútua entre todos os participantes do sistema de tráfego em questão. Claro que isso tudo pressupõe a adesão, mesmo inconsciente, a lugares-comuns e paradigmas teóricos conhecidos e transformados já em imperativos políticos e institucionais de circunstância, os quais são, por definição, conservadores – o que nos traz de volta ao autor enquanto prático de uma atividade ordinária. Nesse aspecto, o diferencial do dublê de crítico é a faculdade de se manter completamente cego diante de tudo que possa revelar o profundo desinteresse, o imenso tédio das práticas literárias contemporâneas. Os meninos bonitos estão lá, no meio da névoa cerrada do presente sem futuro, pintando freneticamente de luz as sombras de sono e banalidade de que são feitos. Com seu farol tingido, asseguram aos passantes que tudo vai bem, que aquele mar não é abismo, que aquele poço tem fundo, que novos grandes autores estão surgindo naturalmente, que novas obras-primas continuam a ser geradas e até que a literatura de “nosso país” é fecunda e pujante. Quando se chega a esse anúncio maravilhoso, o sistema de tráfego de banalidades está completo. O escritor qualquer coisa encontra seu crítico sem crise. Admiram-se, respeitam-se, amam-se. Se os meninos bonitos fossem mais que invasores de corpos, os quais despossuíram de crítica, tudo o que deveriam ou poderiam fazer era iluminar as trevas da própria cegueira, a obnubilação do sono, o cerco implacável do nevoeiro feito de tédio, ignorância, arrivismo e inconsequência a que estamos submetidos quando escrevemos. Escrever como atividade média é o grau zero da necessidade e da utilidade. Nesse cenário de horror banal, mas que curiosamente se representa como euforia de criação, pouquíssima gente destoa. Isso ocorre porque quase toda gente acha, com razão, que pode fazer parte do elenco de “grandes autores”, ultimamente identificado com a mediania das atividades quaisquer. Claro que, nessas circunstâncias, muito mais difícil e desejável é, por exemplo, obter um bom emprego. Os poucos e raros que desacreditam de escrever, isto é, que não entendem a escrita como atividade necessária e mediana, entendem também que praticá-la é apenas confirmá-la moribunda ou já defunta, mas não enterrá-la de vez. Escrever, frequentemente, é apenas um cadáver que passeia, um defunto que procria e multiplica, como o homem; ou que faz cento por um, como o sêmen de Deus, mas cujos frutos apenas proliferam a secura e o vazio. Se escrever é prática vulgar e inútil, melhor é não fazer (ao contrário do que pensava Cabral, que tinha, entretanto, razão, enquanto era ele a fazê-lo). Nenhum motivo é bastante para escrever. Não precisamos de entretenimentos. Precisamos ainda menos de ficção, de estética, de fazer de conta que não estamos saturados de ficção no campo comum da atividade medíocre. Não precisamos de mais atividade na roda. A condição do escrever é a crise. A literatura que vale a pena que escreve, responde pela destruição do escrito ou simplesmente já não responde a nada. O mar não sofre coisa morta.

sexta-feira, 2 de julho de 2010


A DENÚNCIA DE OUTRORA TAMBÉM FOI O PRENÚNCIO DE QUE A EXCLUSÃO, À ÉPOCA JÁ GRITANTE, AINDA MAIOR ALCANCE LOGRARIA. E -O MAIS GRAVE- DE MANEIRA TAL A EXCLUIR O INDIVÍDUO CONTEMPORÂNEO COMO SUJEITO DA HISTÓRIA, SEM A SUA PERCEPÇÃO DISSO.