
Homens de hoje, o que é o real?
No poema “Lucrécio na janela” de Christian Prigent, o real se faz presente. O poema recoloca Lucrécio em nosso tempo. O poeta latino “vem à janela” e se dirige aos homens.
A janela do tempo nos convoca a uma nova reflexão da poesia a partir do conceito de real. O poema é escrito em francês, mas também tem versos em latim, retirados do poema De Rerum Natura[2] de Lucrécio. Logo no início, Prigent põe a falar o poeta romano:
(...) homens do futuro, salve!
Eu disse: eu vejo as coisas se fazendo em todo o campo do vazio.
Eu vi o real se fazer no vazio, eu vi o real
esvaziar os nomes da língua.
Eu vi o vazio dos nomes face ao movimento do engendramento
das coisas.
A escrita está situada nos vazios que vem interromper o tecido da linguagem de toda produção humana, e ela deixa um traço ativo do negativo. O poeta Prigent utiliza fórmulas negativas como “inominável, in-imaginável, im-pensável” para designar o buraco do real. Ele concebe uma formulação do real para refletir sobre a poesia contemporânea. Prigent nomeia a poesia como “a simbolização paradoxal de um buraco” e diz que ela tem por tarefa “designar o real como buraco no corpo constituído das línguas” a cada “momento da experiência (do outro, do mundo, do corpo, da irrupção inconsciente)”. Designa, então, este buraco “desenhando enfaticamente as bordas”, de modo não só enfático, mas também ambíguo e enigmático. O poeta explicita: “esse buraco, eu o nomeio real. Real entendido aqui no sentido lacaniano: o que começa onde o sentido pára”. O real, segundo essa concepção, começa lá onde cessa o sentido comumente socializado.
O ritmo, o sopro e o som na compreensão de Prigent, terão uma importância fundamental para favorecer uma aproximação ao conceito de real. Isto porque o ritmo “é o modo de aparição na língua do real como buraco, do real ausente de todo fechamento estabilizado do som e do sentido”. O ritmo também implica algo da repetição, já que ele introduz a perda de gozo. Nesse movimento pulsional que cada poeta impõe à sua própria escrita, ele se defronta muitas vezes com um vazio – delimitado por uma estrutura de borda – que o próprio movimento produz. Ouïssance é o nome dado por Prigent a esse movimento de gozo da língua ritmada e sonorizada. Cito Prigent: “Eu sopro em versos alguma coisa do impossível. (...) um sopro fecundante retoma vigor”. E o poeta vai trabalhar com o real, construindo “equivalentes verbais, sonorizados, ritmados”.
Ao escrever o poema, então, o poeta descobre, ao longo de sua experiência e trabalho com a língua, um “ponto de poesia” a partir do qual, na tensão da escrita, ele possa trazer algo do impossível da ‘estrutura’ do real. Esse real que, para a psicanálise, é visto como o impossível, aquilo que é “radicalmente perdido, excluído do simbólico”. Lacan já havia anunciado na Lógica do fantasma que “o impossível é o real, simplesmente”. Essa fórmula lacaniana aqui apresentada pode parecer mais natural se excluirmos a simbolização da jogada. A simbolização seria uma exigência da categoria do ‘possível’. Na verdade, como sabemos, a coisa não é tão simples assim. Mas, não irei discutir esse ponto neste trabalho.
No seminário R.S.I, Lacan afirma que só podemos manejar o real como “o expulso do sentido, quer dizer, o impossível como tal”. Ele discorre sobre o real de maneira clara e precisa. Real enquanto aversão do sentido e não pertencente ao mundo exterior. Real que “não é o mundo e não há a menor esperança de alcançá-lo pela representação”. Real que escreve o que é “estritamente impensável” e introduz uma ‘nuance diferencial’. Prigent irá trabalhar com essa antinomia entre o real e o sentido.
Além disso, na poesia contemporânea existe um movimento de trabalho contra as representações priorizando o real, desconstruindo não somente as representações picturais e seu modo de significação, mas também a organização de toda referência. A poesia, nessa concepção, não pode mais fazer imagens, ou mais precisamente, ela se afasta do visível. Sabemos que dar imagem é dar forma, é enquadrar as coisas, construir uma circunstância, um fato que possa ser contado, olhado. A poesia, nessa desfiguração da imagem opera a partir de uma perda de imagem, de uma “deflação imaginária” visando o real. A estratégia do poeta, nessa formulação que faço, é a de abrir um buraco, isto é, esburacar o campo da legibilidade e para isto ele não só fura as imagens como também os discursos. O que permite deslocar o eixo da leitura desde a realidade tal qual ela é, até esta falta que supõe o irrepresentável. Assim, o irrepresentável ao trazer consigo a falta da imagem, porta um buraco; o buraco do real. E a poesia, enquanto experiência, tenta fazer borda a esse buraco.
Em outro momento do poema “Lucrécio na janela”, os versos falam da proximidade do real com De rerum natura:
Homens do futuro, traduzam meu título:
De rerum natura = Do Real (do Inominável).
(...) Homens de hoje, o que é o real?
Eu disse: rerum natura = começo, engendramento, vazio, movimento.
Não: às coisas feitas. Mas: as coisas em via de nascer.
No movimento de engendramento das coisas, o real se mostra como material verbal, real da fonação, “real da escrita detalhada, desossada, em um infatigável labor do extremo da língua”: a materialidade mesma do poema. Há um moterialisme[21] operando nesse engendramento. Os versos de Prigent apresentam o real e ao mesmo tempo introduzem algumas questões pertinentes ao poeta Lucrécio, a saber; as coisas e o vazio. É a própria matéria da linguagem que está em jogo. No século I a. C. o poeta latino dizia, em sua visão materialista do mundo, que
toda a natureza consiste apenas em corpo e vazio. Somente os corpos e o
vazio existem. E o resto? E tudo que nos cerca? Os homens, os cavalos, as
montanhas, a Lua, e também o azul do céu, a suavidade do ar, o pôr do sol,
e a beleza, o amor, a tristeza será que isso não existe? Sim, para Lucrécio,
isso existe, mas não verdadeiramente, não absolutamente. São apenas
propriedades ou ainda acidentes (eventos) dos corpos e do vazio.[22]
A natureza de que se trata na concepção lucreciana é a própria materialidade da linguagem. Lucrécio opera com o corpo da linguagem e com o som das palavras manipulando a estrutura da linguagem. Enquanto poeta materialista, ele antecipa todas as pesquisas que partem do ‘materialismo da palavra’. Ao utilizar as letras do alfabeto como modelo para explicar sua teoria sobre o ‘cosmos’, Lucrécio utiliza a palavra latina elementa, que, semelhante à palavra stoicheion (elemento) em grego, ao mesmo tempo em que se aproxima do elemento físico (o átomo), se aproxima da letra. Nessa espécie de biblioteca de Babel, o poeta argumenta, em sua teoria atomista, que “todos os elementos indivisíveis que compõem todos os corpos reais ou possíveis dos mundos” são comparáveis “às letras do alfabeto que compõem todas as palavras da linguagem”. Assim, com cerca de vinte e cinco letras, o poeta latino podia escrever “as milhares de palavras de uma língua”. Desta forma, a escrita acontece em meio às letras do alfabeto que se arrumam no espaço branco da página; no espaço vazio.
Relembro que quando Lacan está debruçado em seu trabalho com o objeto a na conferência La Troisième, ele diz que a letra “está ao alcance da mão”, e recupera Aristóteles em sua proposição do ‘elemento’. O filósofo, ao se propor a dar uma idéia do elemento, “tem de se valer de uma série de letras, rsi”, exatamente igual a Lacan, que trabalhou com “um certo número de letras” e, em especial, a letra ‘a’.
No Seminário XX, Lacan afirma, com uma certa ironia, que vai se limitar à letra A – “aliás, cito Lacan, a Bíblia só começa com a letra B, ela deixou a letra A – para que eu me encarregue”dela. O passo seguinte foi dado em direção à lalangue, partindo da idéia de que “não há letra sem lalangue”.
Há, em toda operação do real, uma res a ser enunciada. A mesma res que ecoa nas letras de Francis Ponge, evocada por Lacan no seminário “O saber do psicanalista”. A res que se reporta à coisa, à propriedade, àquilo que exprime o que existe. “Escrevam R.E.S.O.N Escrevam! Concedam-me esse prazer”, diz Lacan. O que ressoa nessa grafia pongiana? Uma questão que toca não só aos matemáticos, mas também a alguns poetas, entre eles, Ponge, Lucrécio e Prigent. Lembremos Lacan nesse seminário. Ele se pergunta: será que aquilo que ressoa é a origem da res, daquilo que a realidade é feita? Serão ‘os princípios das coisas’? argumentaria Lucrécio. Então, Lacan evoca a matemática dizendo que se pode extrair algo da linguagem à título da lógica. E Ponge com sua formulação também alcança esse ponto do impossível da linguagem. Há algo mais além nessa interrogação lógica: R.E.S.O.N.
E a razão das coisas, “o que é ela senão mais exatamente a réson, a ressonância da fala estendida, da lira estendida ao extremo.
Os versos de Prigent traduzem ainda um esforço no estilo poético:
Real: cada coisa em movimento, infixado, inominável.
Mundo aberto. Vazio + motilidade
Face a esse desafio: a língua.
Quer dizer: a paixão neológica
Porque isso (o que há a fazer) vem nas fendas da lógica
(descobre a exceção do real nas línguas)
Uma exigência de poesia leva o poeta a aceder ao estilo poético. E isto não ocorre sem esforço, até mesmo com um trabalho de forçar a língua. O poeta, contudo, exercerá sua voz com um estilo rugoso e cruel, distante do “eu” pessoal. Aliás, o estilo na poesia não é o homem mesmo, com o seu natural talento e seu jeito linguarudo de ser. Prigent esclarece que “o que interessa no homem, enquanto estilo, é o que rugosamente, cruelmente, faz falta ao caráter pessoal da voz humana”. Ou seja, a sua singularidade, que é vai ser trabalhado como uma viaonceito de realo estabilizado do som e do sentido"algo inseparável de “um ponto especifico de real”, algo que escapa a toda tomada da palavra, da imagem e da representação. E é precisamente no fato de não reduzir o real ao impossível de ser simbolizado, mas, ao contrário, fazê-lo trabalhar como causa, isto é, junto com o ato da escrita inventando o estilo do poeta, que essa singularidade pode se mostrar.
Os versos do poeta ainda pontuam:
- articula, poeta, articula!
O que verá perto de vocês, Ponge (Franciscvs
Pontius Nemavsensis Poeta:
no meu poema, a língua não diz somente a natureza (o real):
ela funciona como a Natureza, ela trabalha como o real (“homologia de
funcionamento”).
A questão do funcionamento do real foi bem trabalhada por François Balmès, no texto “O Real, será que isso funciona?”. Balmès enuncia um caminho para resolver essa questão; o “real marche à sua maneira. (...) Marche, no duplo sentido de caminhar, progredir, e de funcionar”.
No entanto, o poeta enuncia que a ‘língua trabalha como o real’, o que inclui pensar lalangue / lalíngua participando da invenção poética.
No poema “Lucrécio na janela” de Christian Prigent, o real se faz presente. O poema recoloca Lucrécio em nosso tempo. O poeta latino “vem à janela” e se dirige aos homens.
A janela do tempo nos convoca a uma nova reflexão da poesia a partir do conceito de real. O poema é escrito em francês, mas também tem versos em latim, retirados do poema De Rerum Natura[2] de Lucrécio. Logo no início, Prigent põe a falar o poeta romano:
(...) homens do futuro, salve!
Eu disse: eu vejo as coisas se fazendo em todo o campo do vazio.
Eu vi o real se fazer no vazio, eu vi o real
esvaziar os nomes da língua.
Eu vi o vazio dos nomes face ao movimento do engendramento
das coisas.
A escrita está situada nos vazios que vem interromper o tecido da linguagem de toda produção humana, e ela deixa um traço ativo do negativo. O poeta Prigent utiliza fórmulas negativas como “inominável, in-imaginável, im-pensável” para designar o buraco do real. Ele concebe uma formulação do real para refletir sobre a poesia contemporânea. Prigent nomeia a poesia como “a simbolização paradoxal de um buraco” e diz que ela tem por tarefa “designar o real como buraco no corpo constituído das línguas” a cada “momento da experiência (do outro, do mundo, do corpo, da irrupção inconsciente)”. Designa, então, este buraco “desenhando enfaticamente as bordas”, de modo não só enfático, mas também ambíguo e enigmático. O poeta explicita: “esse buraco, eu o nomeio real. Real entendido aqui no sentido lacaniano: o que começa onde o sentido pára”. O real, segundo essa concepção, começa lá onde cessa o sentido comumente socializado.
O ritmo, o sopro e o som na compreensão de Prigent, terão uma importância fundamental para favorecer uma aproximação ao conceito de real. Isto porque o ritmo “é o modo de aparição na língua do real como buraco, do real ausente de todo fechamento estabilizado do som e do sentido”. O ritmo também implica algo da repetição, já que ele introduz a perda de gozo. Nesse movimento pulsional que cada poeta impõe à sua própria escrita, ele se defronta muitas vezes com um vazio – delimitado por uma estrutura de borda – que o próprio movimento produz. Ouïssance é o nome dado por Prigent a esse movimento de gozo da língua ritmada e sonorizada. Cito Prigent: “Eu sopro em versos alguma coisa do impossível. (...) um sopro fecundante retoma vigor”. E o poeta vai trabalhar com o real, construindo “equivalentes verbais, sonorizados, ritmados”.
Ao escrever o poema, então, o poeta descobre, ao longo de sua experiência e trabalho com a língua, um “ponto de poesia” a partir do qual, na tensão da escrita, ele possa trazer algo do impossível da ‘estrutura’ do real. Esse real que, para a psicanálise, é visto como o impossível, aquilo que é “radicalmente perdido, excluído do simbólico”. Lacan já havia anunciado na Lógica do fantasma que “o impossível é o real, simplesmente”. Essa fórmula lacaniana aqui apresentada pode parecer mais natural se excluirmos a simbolização da jogada. A simbolização seria uma exigência da categoria do ‘possível’. Na verdade, como sabemos, a coisa não é tão simples assim. Mas, não irei discutir esse ponto neste trabalho.
No seminário R.S.I, Lacan afirma que só podemos manejar o real como “o expulso do sentido, quer dizer, o impossível como tal”. Ele discorre sobre o real de maneira clara e precisa. Real enquanto aversão do sentido e não pertencente ao mundo exterior. Real que “não é o mundo e não há a menor esperança de alcançá-lo pela representação”. Real que escreve o que é “estritamente impensável” e introduz uma ‘nuance diferencial’. Prigent irá trabalhar com essa antinomia entre o real e o sentido.
Além disso, na poesia contemporânea existe um movimento de trabalho contra as representações priorizando o real, desconstruindo não somente as representações picturais e seu modo de significação, mas também a organização de toda referência. A poesia, nessa concepção, não pode mais fazer imagens, ou mais precisamente, ela se afasta do visível. Sabemos que dar imagem é dar forma, é enquadrar as coisas, construir uma circunstância, um fato que possa ser contado, olhado. A poesia, nessa desfiguração da imagem opera a partir de uma perda de imagem, de uma “deflação imaginária” visando o real. A estratégia do poeta, nessa formulação que faço, é a de abrir um buraco, isto é, esburacar o campo da legibilidade e para isto ele não só fura as imagens como também os discursos. O que permite deslocar o eixo da leitura desde a realidade tal qual ela é, até esta falta que supõe o irrepresentável. Assim, o irrepresentável ao trazer consigo a falta da imagem, porta um buraco; o buraco do real. E a poesia, enquanto experiência, tenta fazer borda a esse buraco.
Em outro momento do poema “Lucrécio na janela”, os versos falam da proximidade do real com De rerum natura:
Homens do futuro, traduzam meu título:
De rerum natura = Do Real (do Inominável).
(...) Homens de hoje, o que é o real?
Eu disse: rerum natura = começo, engendramento, vazio, movimento.
Não: às coisas feitas. Mas: as coisas em via de nascer.
No movimento de engendramento das coisas, o real se mostra como material verbal, real da fonação, “real da escrita detalhada, desossada, em um infatigável labor do extremo da língua”: a materialidade mesma do poema. Há um moterialisme[21] operando nesse engendramento. Os versos de Prigent apresentam o real e ao mesmo tempo introduzem algumas questões pertinentes ao poeta Lucrécio, a saber; as coisas e o vazio. É a própria matéria da linguagem que está em jogo. No século I a. C. o poeta latino dizia, em sua visão materialista do mundo, que
toda a natureza consiste apenas em corpo e vazio. Somente os corpos e o
vazio existem. E o resto? E tudo que nos cerca? Os homens, os cavalos, as
montanhas, a Lua, e também o azul do céu, a suavidade do ar, o pôr do sol,
e a beleza, o amor, a tristeza será que isso não existe? Sim, para Lucrécio,
isso existe, mas não verdadeiramente, não absolutamente. São apenas
propriedades ou ainda acidentes (eventos) dos corpos e do vazio.[22]
A natureza de que se trata na concepção lucreciana é a própria materialidade da linguagem. Lucrécio opera com o corpo da linguagem e com o som das palavras manipulando a estrutura da linguagem. Enquanto poeta materialista, ele antecipa todas as pesquisas que partem do ‘materialismo da palavra’. Ao utilizar as letras do alfabeto como modelo para explicar sua teoria sobre o ‘cosmos’, Lucrécio utiliza a palavra latina elementa, que, semelhante à palavra stoicheion (elemento) em grego, ao mesmo tempo em que se aproxima do elemento físico (o átomo), se aproxima da letra. Nessa espécie de biblioteca de Babel, o poeta argumenta, em sua teoria atomista, que “todos os elementos indivisíveis que compõem todos os corpos reais ou possíveis dos mundos” são comparáveis “às letras do alfabeto que compõem todas as palavras da linguagem”. Assim, com cerca de vinte e cinco letras, o poeta latino podia escrever “as milhares de palavras de uma língua”. Desta forma, a escrita acontece em meio às letras do alfabeto que se arrumam no espaço branco da página; no espaço vazio.
Relembro que quando Lacan está debruçado em seu trabalho com o objeto a na conferência La Troisième, ele diz que a letra “está ao alcance da mão”, e recupera Aristóteles em sua proposição do ‘elemento’. O filósofo, ao se propor a dar uma idéia do elemento, “tem de se valer de uma série de letras, rsi”, exatamente igual a Lacan, que trabalhou com “um certo número de letras” e, em especial, a letra ‘a’.
No Seminário XX, Lacan afirma, com uma certa ironia, que vai se limitar à letra A – “aliás, cito Lacan, a Bíblia só começa com a letra B, ela deixou a letra A – para que eu me encarregue”dela. O passo seguinte foi dado em direção à lalangue, partindo da idéia de que “não há letra sem lalangue”.
Há, em toda operação do real, uma res a ser enunciada. A mesma res que ecoa nas letras de Francis Ponge, evocada por Lacan no seminário “O saber do psicanalista”. A res que se reporta à coisa, à propriedade, àquilo que exprime o que existe. “Escrevam R.E.S.O.N Escrevam! Concedam-me esse prazer”, diz Lacan. O que ressoa nessa grafia pongiana? Uma questão que toca não só aos matemáticos, mas também a alguns poetas, entre eles, Ponge, Lucrécio e Prigent. Lembremos Lacan nesse seminário. Ele se pergunta: será que aquilo que ressoa é a origem da res, daquilo que a realidade é feita? Serão ‘os princípios das coisas’? argumentaria Lucrécio. Então, Lacan evoca a matemática dizendo que se pode extrair algo da linguagem à título da lógica. E Ponge com sua formulação também alcança esse ponto do impossível da linguagem. Há algo mais além nessa interrogação lógica: R.E.S.O.N.
E a razão das coisas, “o que é ela senão mais exatamente a réson, a ressonância da fala estendida, da lira estendida ao extremo.
Os versos de Prigent traduzem ainda um esforço no estilo poético:
Real: cada coisa em movimento, infixado, inominável.
Mundo aberto. Vazio + motilidade
Face a esse desafio: a língua.
Quer dizer: a paixão neológica
Porque isso (o que há a fazer) vem nas fendas da lógica
(descobre a exceção do real nas línguas)
Uma exigência de poesia leva o poeta a aceder ao estilo poético. E isto não ocorre sem esforço, até mesmo com um trabalho de forçar a língua. O poeta, contudo, exercerá sua voz com um estilo rugoso e cruel, distante do “eu” pessoal. Aliás, o estilo na poesia não é o homem mesmo, com o seu natural talento e seu jeito linguarudo de ser. Prigent esclarece que “o que interessa no homem, enquanto estilo, é o que rugosamente, cruelmente, faz falta ao caráter pessoal da voz humana”. Ou seja, a sua singularidade, que é vai ser trabalhado como uma viaonceito de realo estabilizado do som e do sentido"algo inseparável de “um ponto especifico de real”, algo que escapa a toda tomada da palavra, da imagem e da representação. E é precisamente no fato de não reduzir o real ao impossível de ser simbolizado, mas, ao contrário, fazê-lo trabalhar como causa, isto é, junto com o ato da escrita inventando o estilo do poeta, que essa singularidade pode se mostrar.
Os versos do poeta ainda pontuam:
- articula, poeta, articula!
O que verá perto de vocês, Ponge (Franciscvs
Pontius Nemavsensis Poeta:
no meu poema, a língua não diz somente a natureza (o real):
ela funciona como a Natureza, ela trabalha como o real (“homologia de
funcionamento”).
A questão do funcionamento do real foi bem trabalhada por François Balmès, no texto “O Real, será que isso funciona?”. Balmès enuncia um caminho para resolver essa questão; o “real marche à sua maneira. (...) Marche, no duplo sentido de caminhar, progredir, e de funcionar”.
No entanto, o poeta enuncia que a ‘língua trabalha como o real’, o que inclui pensar lalangue / lalíngua participando da invenção poética.
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