quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O COLAPSO DO MITO AMERICANO


Se o esquerdismo, como disse Lênin, é a doença infantil do comunismo, o antiamericanismo é a doença senil do esquerdismo, hoje uma verdadeira epidemia. É ela que está na origem de O mito do colapso do poder americano, de José Luis Fiori, Carlos Medeiros e Franklin Serrano (Rio de Janeiro, Record, 2008). A primeira coisa a se dizer sobre o livro é ele ser excelente. A segunda, que deve desagradar, na exata medida de sua excelência, a todos os acometidos pela doença.
O antiamericanismo é uma espécie de vício nascido da Guerra Fria. À época do próprio Lênin, a Inglaterra era o alvo principal da esquerda. Porém a URSS sobreviveria ao Império Britânico para ver os EUA emergirem da Segunda Guerra como a maior potência capitalista.
A esquerda, então, adotaria a visão vesga de Sartre. Enxergava os absurdos do macartismo, mas não via os horrores da Revolução Cultural chinesa; via as misérias do regime de Pinochet, mas quase não percebia a absoluta barbárie do regime de Pol Pot; não perdia um detalhe da devastação da guerra do Vietnã, mas perdia todos os detalhes e o conjunto inteiro da devastação ainda mais brutal da invasão soviética do Afeganistão.
Porém o contraste maior se daria entre os desempenhos socioeconômicos. Enquanto a URSS, a China de Mao, o Leste da Europa etc. eram reproduções em larga escala da cinzenta pobreza crônica da Coréia do Norte, parte importante do mundo capitalista sob hegemonia americana reproduzia a atual Coréia do Sul. País depauperado de plantadores de arroz, saído da destruição imposta por quase meio século de imperialismo japonês, transforma-se rapidamente, depois da Segunda Guerra, num próspero país urbano e industrializado.
Se, apesar de tudo, o “american way” não é afinal o “american dream”, com certeza a URSS, seus pares e seus satélites eram o pesadelo cinza do stalinismo. Uma rejeição igual de ambos, em nome de um tertius, faria então todo o sentido. Mas jamais houve um antissovietismo como houve, e ainda há, o antiamericanismo. Ou melhor, houve um antissovietismo que merecia o nome – o que não é verdade para as críticas à esquerda –, mas ele pertencia à direita. Findos a Guerra Fria, a URSS e o socialismo (vulgo stalinismo) como alternativa real de poder, extinguiu-se naturalmente o antissovietismo da direita, mas não o antiamericanismo da “esquerda” (entre aspas, pois já não se sabe ao certo o que seja, posto não se tratar mais da alternativa real de poder ao capitalismo que a definia e justificava).
Uma pequena ideologia, o antiamericanismo é como uma lupa duplamente deformada, de um lado, pelo desejo de ver cair o inimigo, e do outro, pela frustração de ver triunfar esse inimigo. Sua falta de nitidez leva, entre outras coisas, a que arautos da “esquerda”, como pregadores do apocalipse, passem a vida a anunciar o fim dos EUA e, em consequência, do capitalismo.
Não se trata de uma necessidade lógica. O Império Britânico desapareceu, mas não afundou com ele o sistema capitalista. Porém não estamos falando de racionalidade analítica, e sim de irracionalidade do tipo psicanalítico. Os que desejam o fim dos EUA desejam o fim do capitalismo – na verdade, desejam o fim dos EUA porque desejam o fim do capitalismo. Logo, o fim dos EUA, que aliás está bem próximo, será o fim do capitalismo.
A eleição de George W. Bush e a crise financeira poriam então os antiamericanistas em estado de graça. Bush acabou com a sedução do “soft power”, a influência cultural que os EUA exerciam sobre bilhões de indivíduos “alienados” pelo mundo (não porque os produtos culturais norte-americanos sejam hoje menos consumidos, mas porque seu consumo se separou da simpatia aos próprios EUA), enquanto a crise financeira promete agora romper (ao menos para os antiamericanistas) as próprias “bases do sistema”. Aleluia! O fim do mundo está próximo.
É contra essa visão “milenarista” de muitos analistas da “esquerda” e de seus arautos na mídia que argumentam os autores de O mito do colapso do poder americano. Não porque sejam, absolutamente, americanistas, mas porque são radicalmente realistas.
Os autores deste livro estão convencidos de que o caminho da transformação social começa pelo estudo rigoroso da realidade, e compartem a convicção de que é necessário distinguir a análise dos fatos, desejos e esperanças deles mesmos.
Maneira mais ou menos sutil de dizer que os arautos do colapso, ao contrário, nem empreendem o estudo rigoroso da realidade nem distinguem fatos de desejos (para não falar da qualidade desses desejos, dada a relação sempre algo ambígua da maior parte da “esquerda” com o “socialismo real”, vulgo stalinismo, vulgo fascismo vermelho – mas esta é outra [a mesma] história).
O livro se organiza como um tripé sólido: primeiro, José Luis Fiori analisa o sistema internacional de Estados e a hegemonia americana; segundo, Franklin Serrano aborda as economias americana e mundial; terceiro, Carlos Medeiros se estende sobre os poderes ascendentes e concorrentes da Rússia e da China.Em “O sistema interestatal capitalista no início do século XXI” (pp. 11-68), José Luis Fiori discute diretamente, de início (“I. A teoria dos ‘ciclos hegemônicos’ e a tese da ‘crise terminal’”, pp. 11-22), com dois dos mais notórios arautos do colapso, o norte-americano Imannuel Wallerstein e o italiano Giovanni Arrighi. O resultado é o melhor exemplo de rigor acadêmico aliado a clareza argumentativa e a lucidez analítica. O que afinal resulta em abrangência e profundidade da análise. Pois para bem refutar os argumentos dos arautos, Fiori parte deles mas a eles não se limita, deixando-os cada vez mais para trás enquanto avança (“II. A teoria do ‘universo em expansão’ e a tese da ‘explosão expansiva’”, pp. 22-34) para a análise ao mesmo tempo histórica e contemporânea do “sistema interestatal capitalista”. Como este rege o mundo em que vivemos (e em que, num futuro próximo, viveremos), pouca coisa poderia ser mais relevante.
Giovanni Arrighi parte do conceito de hegemonia conforme entendido por Gramsci: a hegemonia (à diferença da pura imposição do poder) é a capacidade do líder de fazer com que a defesa de seus interesses coincida ou ao menos pareça coincidir com os interesses da maioria. Aos “ciclos hegemônicos” junta, então, os ciclos econômicos do capital, ou “ciclos de acumulação” do marxismo clássico, para concluir que o fim de uma dominação se dá quando o fim do “ciclo hegemônico” coincide com o fim do “ciclo de acumulação”. Trocando em miúdos, quando o fim da ascendência política coincide com o fim do predomínio econômico. Para complicar, os fins dos dois ciclos se dividem em duas crises: as crises “inicial” e “final”. Enfim, uma dominação termina quando as “crises finais” dos dois “ciclos” se sobrepõem. Basta, agora, identificar a “crise inicial” do “ciclo hegemônico” norte-americano, depois a “crise final” dele, em seguida a “crise inicial” do “ciclo de acumulação”, e por fim a sua “crise final”, para decretar com segurança e tranquilidade que o capitalismo e os EUA chegaram ao seu fim final. Ou talvez não.

Apesar de ser uma teoria cíclica, sobre processos recorrentes, Giovanni Arrighi atribui, muitas vezes, uma dimensão revolucionária ao fim do “ciclo americano”, numa clara analogia com a teoria do imperialismo de Lênin, na qual a “etapa superior” do capitalismo seria, ao mesmo tempo, a ante-sala da revolução socialista mundial. Com a diferença de que, na teoria marxista do imperialismo do início do século XX, a revolução e a superação do sistema capitalista não eram um subproduto do “declínio inglês”, mas, muito ao contrário, o resultado da expansão vitoriosa do capitalismo e do próprio imperialismo. Tratava-se de um movimento ascendente do poder dos Estados europeus e de suas “organizações econômicas nacionais”, e não tinha a ver com o “ciclo vital” de nenhuma potência em particular. Em algumas passagens, Wallerstein e Arrighi falam da “crise terminal” da hegemonia norte-americana (no caso de Arrighi) e da crise final do “sistema mundial moderno” (no caso de Wallerstein) como sendo parte de uma revolução mundial, ou mesmo socialista. Mas, ao mesmo tempo, Giovanni Arrighi fala da China ou do “arquipélago asiático” como prováveis sucessores da “hegemonia norte-americana”, e, neste sentido, seu conceito de “crise terminal” volta a ter uma dimensão cíclica e repetitiva, não revolucionária.

A refutação de Fiori é mais consistente. Ele argumenta que, mesmo se Arrighi e Wallerstein estivessem certos quanto à identificação do começo do fim do “ciclo hegemônico” norte-americano na débâcle múltipla dos anos 1970, militar (Vietnã), econômica (crise do petróleo) e político-moral (Watergate – embora não cite esta última), estariam ainda enganados sobre as verdadeiras consequências do fim da hegemonia. Isto é, a troca da busca do consenso de tipo gramsciano pela tentativa de dominação direta de tipo imperial. O fim da hegemonia é o começo, não o fim do império.

Com relação à “crise da década de 70”, hoje está claro que ela não enfraqueceu o poder americano; mais do que isto, todos os sinais que foram apontados como indicadores de seu declínio, se transformaram no seu contrário. [É] verdade que os Estados Unidos se transformaram no grande “devedor” da economia mundial, a partir dos anos 1970. Mas essa dívida não provocou um desequilíbrio fatal na economia americana, e funcionou com um motor da economia internacional nos últimos quarenta anos. Foi também [quando] ocorreu a crise final do Sistema de Breton Woods e, no entanto, o “padrão dólar ouro” foi substituído por um novo padrão monetário internacional, o “dólar flexível”, que permitiu aos Estados Unidos exercerem um poder monetário e financeiro sem precedente. [Muitos então] viram na desregulação do mercado financeiro americano uma reação defensiva de uma economia fragilizada, e, no entanto, foi apenas o primeiro passo de uma desregulação em cadeia, que se transformou, nos anos 1990, na mola-mestra da globalização vitoriosa do capital financeiro norte-americano. [...] Além disso, hoje está claro que foi à sombra da derrota americana no Vietnã que os Estados Unidos e a China negociaram a sua nova parceria estratégica, que contribuiu para o fim da União Soviética e da Guerra Fria e revolucionou a geopolítica mundial deste início do século XXI. [A] derrota no Vietnã foi um momento de virada na estratégia internacional norte-americana e, ao mesmo tempo, o ponto de partida da [atual] revolução tecnológico-militar [...]. Ou seja, aquilo que se assistiu depois da “crise dos 1970” não foi o “declínio americano”, mas uma mudança estrutural no sistema mundial, e um aumento exponencial do poder dos Estados Unidos. Pouco a pouco, o sistema mundial foi deixando para trás um modelo ‘regulado’ de ‘governança global’ [liderado pelos Estados Unidos], e foi se movendo em direção de uma nova ordem mundial com características mais imperiais do que hegemônicas.
Agora de novo, neste início do século XXI, [as dificuldades políticas e econômicas dos Estados Unidos] poderão se prolongar e aprofundar, mas, do nosso ponto de vista, com certeza não se trata do fim do poder americano, muito menos da economia capitalista.

Trata-se de uma questão de grau, que resulta numa radical diferença de interpretação. Enquanto uma visão mais lúcida aponta para flutuações relativas do poder norte-americano a partir de sua emergência como superpotência ao fim da Segunda Guerra (a primeira diminuição resultando da mera reconstrução da Europa Ocidental e do Japão), e, mais para trás, desde a própria construção do país continental a partir da expansão crescente das treze colônias originais, dentro de um ciclo de “longa duração” braudeliano, a visão ideológica enxerga fins finais apontando para recomeços absolutos: o olho enviesado pela verticalidade da visão revolucionária não se desenviesa facilmente. Nem deixa de me assustar a cada vez que com ele me deparo. Afinal, a hegemonia americana não resultou no pior dos mundos, tendo em vista, não as visões mais ou menos fantasmáticas que o olhar utópico enxerga do outro lado do espelho do presente, mas as visões claramente aterradoras que a janela da história exibe como alternativas – do nazifascismo ao stalinismo ao fascismo islâmico ao despostismo oriental ao estilo chinês. Se “outro mundo é possível”, como reza o slogan dos “altermundialistas”, absolutamente nada garante que um mundo melhor seja o mais provável – como pretende sugerir o silêncio que o slogan carrega em sua segunda parte ausente, ao não descrever qual. E se o mundo atual, apesar disso, não é bom o bastante, o caminho não está na manutenção do sonho/pesadelo revolucionário, aqui (mal) disfarçado pelo tom ameno de um slogan que de fato pede, como os arautos do colapso, pelo fim deste mundo.
A verdade, como sempre mais complexa, é que este mundo, ao mesmo tempo, está longe de ser bom o bastante, mas parece ainda pior do que realmente é, em função da leitura ideológica. Exemplo recente foi a ansiedade antibelicista quando da invasão do Iraque pelos EUA. Pode-se considerar uma guerra ilegal, como nesse caso, em função da não-anuência da ONU, e ainda injusta, mas nada justifica a completa perda de perspectiva histórica. Como escrevi alhures, “há [apenas] duas ou três guerras hoje, e há vários continentes, como a Europa e as Américas, em que não há guerra alguma; numa série histórica que se estenda do início da história conhecida [...] até a primeira metade do sangrento século XX, esta é a época mais pacífica da história da civilização”. Nem a “guerra” do Iraque condenou o mundo a um estado de guerra, como tanto se afirmou, nem os problemas do período pós-invasão levarão ao colapso do poder americano.
“A economia americana, o padrão dólar flexível e a expansão mundial nos anos 2000” (pp. 71-165), de Franklin Serrano, começa por apontar uma situação algo surpreendente. Ao lado dos que “torcem” (sic) por uma grande crise da moeda americana que leve ao fim do padrão dólar, há uma longa e respeitável lista de analistas conservadores que, sinceramente, acreditam na iminência disso. Como o fim desse padrão representaria uma enorme perda de poder e influência americanos, tanto reais quanto simbólicos, a análise dos últimos acaba por alimentar a torcida dos primeiros. Serrano, porém, argumenta que os dois grupos estão igualmente equivocados, ainda que equivocados por motivos distintos. Além disso, acresce aos anúncios apocalípticos dos arautos do colapso outro fator de (falso) alarme em relação a possíveis crises monetárias terminais: “os conhecidos e compreensíveis excessos de hipérbole da mídia na área econômica e financeira” (p. 75). Serrano postula uma postura mais serena:

Não compartilhamos o hábito cada vez mais comum entre economistas que discutem estes temas de fazer extrapolações imediatas de qualquer mudança de curto prazo nas variáveis relevantes. [...] Preferimos nos concentrar na análise de mudanças que nos parecem mais persistentes e significativas o suficiente para configurar uma nova tendência. Levamos em conta que as flutuações conjunturais, por mais dramáticas que pareçam em alguns momentos, são apenas isso: oscilações conjunturais, que sempre ocorrem e nada mudam de significativo.
Em segundo lugar, seguimos um esquema de análise que tem como ponto de partida um fato fundamental sobre a economia americana e mundial nas últimas décadas cujas implicações mais óbvias continuam sendo ignoradas pela imensa maioria dos analistas.

Esse “fato fundamental ignorado” está ainda melhor desenvolvido numa passagem de outro texto do mesmo autor sobre o tema, reproduzida à página 19 por Fiori:

No atual padrão dólar flexível, os crescentes déficits em conta corrente não impõem nenhuma restrição de balança de pagamentos à economia americana. Como o dólar é o meio de pagamento internacional, ao contrário dos demais países, praticamente todas as importações dos Estados Unidos são pagas em dólar. Isto também implica que praticamente todos os passivos externos norte-americanos sejam também denominados em dólar. Como os dólares são emitidos pelo FED, é simplesmente impossível (enquanto as importações americanas forem pagas em dólar) os Estados Unidos não terem recursos (dólares) suficientes para pagar suas contas externas. Além disso, naturalmente é o FED que determina diretamente a taxa de juros de curto prazo do dólar, enquanto as taxas de juros de longo prazo em dólar são inteiramente dominadas pela expectativa do mercado sobre o curso futuro da taxa do FED. Portanto, como a “dívida externa” americana é em dólar, os Estados Unidos estão na posição peculiar de determinar unilateralmente a taxa de juros que incide sobre sua própria dívida externa. (F. Serrano, “Relações de poder e política macroeconômica americana, de Breton Woods ao padrão dólar flexível”, in J. L. Fiori [org.], O poder americano, p. 211)

Segundo a tese central de Serrano, portanto, as leis econômicas que se aplicam aos demais países não se aplicam da mesma maneira aos EUA, justamente por sua posição hegemônica. E se não se aplicam, o fim dessa hegemonia não pode ser derivada da aplicação de tais leis. A hegemonia, enfim, cria aqui um curto-circuito em que não é ela que entra em colapso, mas os conceitos que apontam o seu fim. O que explica, entre outras coisas, porque a substituição do padrão dólar-ouro pelo atual dólar flexível, no contexto da famosa crise dos anos 1970, levaria logo depois os Estados Unidos a “exercerem um poder monetário e financeiro internacional sem precedente na história da economia”, como afirma Fiori. A crise afinal aumentou o poder do dólar – e dos Estados Unidos. De modo semelhante, a atual crise financeira, ainda que somada ao enorme déficit da balança de pagamentos, não deve levar ao colapso do dólar – ou dos Estados Unidos.“Desenvolvimento econômico e ascensão nacional: rupturas e transições na Rússia e na China”, de Carlos Aguiar de Medeiros, trata de história político-econômica e de geopolítica, envolvendo duas das maiores questões contemporâneas. Por que a URSS de Gorbatchev sucumbiu enquanto a China de Deng triunfou? Como a ascensão da China, a reascensão da Rússia e sua reaproximação as farão agir e reagir face à hegemonia americana? O que leva à pergunta que não quer calar entre os arautos do colapso americano: considerando que os islâmicos não estão (infelizmente – para os arautos) à altura da tarefa, conseguirá afinal a China, secundada pela velha mãe-Rússia, pôr um fim ao “império”?
A primeira questão tem ao menos duas respostas. Uma, curta, a outra, longa. A resposta longa articula as condições iniciais dos dois países quando do início de suas transições, suas distintas conjunturas externas (com a URSS enfrentando as escaladas da Guerra Fria e da guerra quente no Afeganistão, empreendidas por Reagan, que ao mesmo tempo apoiava a abertura de mercados para a China) e, por fim, as diferentes decisões econômicas tomadas pelas respectivas lideranças. A resposta curta toma como determinantes, ainda que não exclusivas, estas últimas variáveis.
Uma boa explicação, portanto, para a URSS ter sucumbido enquanto a China se erguia está nos próprios modos como os dois Estados decidiram fazer suas transições econômicas, conforme didaticamente sintetizado em uma tabela comparativa :
Transição russa:
1) imediata eliminação do controle dos preços;
2) rápida privatização das empresas;
3) rápida eliminação da intervenção estatal nas decisões das empresas;
4) cortes elevados nas despesas públicas;
5) aperto na política monetária;
6) rápida abertura comercial e financeira.Transição chinesa:
1) eliminação gradual do controle dos preços;
2) lenta privatização das empresas;
3) manutenção temporária da intervenção estatal na direção das grandes empresas;
4) expansão dos gastos públicos (infraestrutura);
5) política monetária expansionista;
6) preservação do sistema bancário estatizado.
Em suma, a URSS desmantelou a economia planejada e se lançou ao mercado, levando a uma dramática e catastrófica liquefação de sua economia (que, ao contrário do mito, não estava necessariamente condenada ao completo colapso pela relativa ineficiência do planejamento central), enquanto a China fez e ainda faz uma transição em que o Estado lidera tanto a transição quanto o próprio mercado. Há aqui uma enorme ironia. A URSS, berço da Revolução, parece ter afinal acreditado, com Gorbatchev e Ieltsin, no livre mercado, enquanto a China compreendeu a verdade de sua inexistência.
Uma das economias mais subsidiadas do mundo é, desde Roosevelt, a dos EUA. Depois do New Deal e a partir da economia de guerra instalada em 1942, o famoso complexo industrial-militar tornou-se a espinha dorsal da economia americana, cujo enorme orçamento não responde ao mercado, mas ao Estado. Não é por acaso que a outra parte fundamental de sua economia, a inovação tecnológica e a tecnologia da informação, é fruto direto desse subsídio (computador, satélites, celulares e internet são criações militares). Deste ponto de vista, os que se batem contra o capitalismo de “livre mercado” americano e pedem pela presença estatal não sabem exatamente o que dizem. O liberalismo econômico existe, mas, de certa forma, “à chinesa”. A verdadeira discussão, portanto, é sobre as corretas ações do Estado na economia, e não sobre sua presença ou ausência (um dos piores exemplos é, naturalmente, o Brasil, com seus impostos de nível sueco e seus serviços básicos, incluindo infraestrutura, de estilo africano, tudo embalado por corrupção, mau planejamento e superfaturamento de tipo kafkiano).
Ao lado dos altos preços do petróleo e do gás, é justamente a volta do Estado ao comando da economia, ainda que não à economia estatizada, que explica o lento mas real reerguer da Rússia depois da débâcle dos anos 1990.
A reascensão russa, por sua vez, aponta para uma definição do quadro estratégico do século XXI. Nem a Europa, cada vez mais envelhecida (em mais de um sentido) e ensimesmada, nem o Japão ou um bando qualquer de “tigres asiáticos”, sequer a China isoladamente, menos ainda uma desconjuntada entidade que só existe em uma sigla (o “BRIC”, grupo “formado” por Brasil, Rússia, Índia e China). O verdadeiro desafio à hegemonia americana está, ou melhor, estará na dupla Rússia-China. (Observação final para leitores-arautos: “definição do quadro estratégico” e “desafio à hegemonia” significam, respectivamente, “definição do quadro estratégico” e “desafio à hegemonia”. Ou seja, não significam confronto estratégico definitivo e destruição da hegemonia.)








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